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Expresso

O mundo dos outros

Mugabe, Thabo Mbeki, a sida e a dra. Beterraba

Thabo Mbeki, Presidente da África do Sul, tem procurado erradicar pobreza no país sem ferir interesses dos brancos nem afugentar investimento estrangeiro. Esta sabedoria, aprendida do exemplo de Mandela e da experiência de vizinhos – erros de Machel em Moçambique, sensatez de Nujoma na Namíbia e prudência dos primeiros anos no poder de Mugabe no Zimbabwe – tem dado fruto. O desemprego é ainda muito alto mas inflação de dois dígitos, vinda já do "apartheid", está agora em 4%; a dívida pública baixou de 64% para 50%; o défice do orçamento passou de 9,5% do PIB em 1993 a 1% dez anos depois. Foram construídas um milhão e meio de casas para pobres; 70% das habitações têm electricidade; mais nove milhões de pessoas passaram a receber água potável.

Externamente, o Presidente representa bem a estatura da República da África do Sul que pela combinação de poder económico e decência política (democracia; separação de poderes) é o país mais importante e influente da África ao sul do Sara. Thabo Mbeki é convidado obrigatório do G8, de Davos, de outras reuniões do Gotha político internacional e os seus bons ofícios são solicitados para dirimir pendências de terceiros.

Duas enormes nódoas borram esta pintura. Uma, é a relutância de Mbeki em usar dos meios de que dispõe para obrigar Mugabe a emendar-se ou a demitir-se (os meios com que o regime do "apartheid" ajudou a derrubar o regime ilegal de Ian Smith na Rodésia). Para ele, Mugabe é primeiro que tudo um herói do anticolonialismo e só muito depois e sem que isso pareça contar o homem que há anos arruína o Zimbabwe e atormenta o seu povo (o FMI prevê 100.000% de inflação no fim do ano; a repressão policial não poupa advogados nem sacerdotes). Outra, é a sua relutância em aceitar drogas cientificamente provadas no alívio da sida. Para ele, a sida não é causado por um vírus mas por subalimentação e fragilidade (atribuíveis ao colonialismo) e o seu tratamento deve ser natural: azeite, alho, beterraba – como a ministra da saúde prega e impõe a um país onde há mais de 4,8 milhões de seropositivos. A ministra, entretanto acusada pela imprensa de desmandos graves, ganhou a alcunha de dra. Beterraba. Opinião internacional informada, oposição sul-africana e grandes sectores do próprio ANC consideram criminosa a atitude do Governo. À parte fanáticos e sabujos, a posição de Mbeki indigna toda a gente: ver morrer milhões que poderiam ser salvos revolta os espíritos mais conformistas.

Quanto ao Zimbabwe, o Presidente está menos sozinho: em África quase todos os seus pares veneram Mugabe, que é sempre aplaudido em reuniões da União Africana.

Tudo isto é triste e vai durar. À uma, escravos forros cheios de razões de queixa continuarão a gostar de bater o pé a antigos donos. À outra, falido o marxismo e rejeitado o racismo, é numa crença absurda de seita que continuará a ancorar-se o ressentimento ancestral de um homem que parecia rendido aos valores do Ocidente.

José Cutileiro