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Expresso

O mundo dos outros

Guerra e paz na estação quente

Agora, no Verão, os europeus em vez de irem para a guerra vão para férias. De Copenhaga a Atenas as pessoas não estranham porque já não se lembram, mas mesmo entre portugueses, que não molham a sopa em bulhas europeias desde 1918, os mais velhos notam a diferença. Em Setembro de 1939 Portugal ia ser neutro, mas ouvia-se telefonia e lembro-me de o pai chegar à praia e dizer que a guerra tinha começado. Durou seis anos.

A mudança deve-se à construção europeia, que concentra cabeças de governantes no propósito de se entenderem uns com os outros em vez de darem cabo uns dos outros. Um exemplo recente: em Junho, vinte seis primeiros-ministros e um Presidente (da França) estiveram reunidos dois dias seguidos em Bruxelas, a pé firme até de madrugada, para convencerem dois gémeos polacos, Presidente e primeiro-ministro em Varsóvia, a concordarem com eles. Apesar de já ninguém ter paciência para os gémeos – nem sequer, ultimamente, a maioria dos polacos -, não houve recurso à força nem ameaça dela. Foi a bem que Varsóvia acabou por ir ao sítio e é assim que as coisas se passam entre europeus de há sessenta anos a esta parte.

Não há bem que sempre dure, mas este resiste. Em grande parte do resto do mundo, porém, continua a ir-se para a guerra como sempre se foi. É isso que rala, quando se olha para a pequenez dos orçamentos de defesa dos países da União (salvo o grego, por medo dos turcos, o britânico, por tradição insular, e o francês, por ambição de grandeza). Dir-se-ia que os europeus acham que já não é preciso bater seja em quem for – nem em legítima defesa – ou então que, se for mesmo preciso, os americanos o farão por eles. A segunda alternativa é duvidosa: os americanos atravessaram o Atlântico em 1917, em 1941, durante a Guerra Fria e (com resultados menos bons) durante a crise jugoslava, dos anos 90, mas os interesses vitais deles poderão afastar-se dos dos europeus; mesmo com apoio americano, pressões inimigas poderão exigir mais capacidade militar europeia do que a que existe; Washington poderá não querer socorrer quem tanto a critica e tão mal pensa dela.

E a primeira alternativa é um disparate: mais dia menos dia, ataques ou ameaças a interesses europeus, na Europa ou em qualquer outra parte do mundo, exigirão resposta militar – e mais valeria nessa altura estar preparado para a dar do que ser incapaz de o fazer. Entretanto, insensatez fanfarrona americana e cinismo timorato europeu não dão para as encomendas de um mundo irrequieto. Palestina, Cachemira e Chipre não desarmam. Fundamentalismo fervilha em cabeças islâmicas, ricas e pobres. O Irão é uma enxaqueca permanente. A África afunda-se. Do lado de cá do Atlântico, nacionalistas albaneses e búlgaros planeiam partilhar a Macedónia assim que os Balcãs animarem outra vez. Do lado de lá, produção de Kalashnikovs vai começar em Outubro na Venezuela, a primeira licença de fabrico no estrangeiro dada por Moscovo desde o fim da Guerra Fria.

Boa continuação de férias.

José Cutileiro