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O mundo dos outros

Familismo amoral

José Cutileiro (www.expresso.pt)

O termo foi inventado por Edward Banfield, sociólogo norte-americano de Harvard que há mais de meio século foi meter o nariz numa aldeia pobre do sul de Itália e escreveu um livro chamado "A Base Moral de uma Sociedade Atrasada". Publicado em 1958, trouxe-lhe alguma fama e muito ridículo. O argumento era de que naquela aldeia a actividade social das pessoas se centrava nos interesses económicos da família. O atraso da comunidade explicava-se pela incapacidade de cada aldeão de transcender em esforços comuns os interesses materiais da sua própria família. Tal se passaria, mutatis mutandis, em outras sociedades mediterrânicas.

O 'familismo amoral' de Banfield era um disparate para quem conhecesse a Europa do Sul. Considerar 'amoral' a defesa da família era ter antolhos éticos que escondiam a ética dos outros. Não ver que os aldeãos resistiam e exploravam como podiam a racionalidade da administração estatal e da acumulação capitalista - corpos estranhos que lhes haviam imposto - resultava da arrogância etnocêntrica do Norte. Em estudos mediterrânicos feitos depois, inspirados por J.K. Campbell, observador subtil e sagaz da honra, da família e das teias de protecção social de pastores gregos, as pessoas passaram a ser vistas como se fossem filhas de Deus e não peças de um modelo económico irrealista.

Há dias, Philomila Tsoukala, jovem advogada grega que foi ensinar para os Estados Unidos, porque, sem relações familiares que lhe abrissem portas, teria ficado a marcar passo em Atenas em vez de alcançar o sucesso profissional de que goza em Washington, escreveu num jornal internacional que medidas de austeridade impostas pela União Europeia e pelo FMI na crise actual irão aumentar o desemprego, fazendo ainda mais gente nova depender da família. Ora 75% das empresas gregas, das maiores às mais pequenas, são familiares. Abusam do trabalho dos jovens, dos velhos e das mulheres da família, sem limites de idade ou de horário, e quem não pertença àquela não chega a lugares de mando. Inovação e concorrência são mortas à nascença; acesso a créditos e dinheiros vindos de fora veio aumentar a corrupção; complacência e fraude entretecem-se para protecção de parentelas. A nossa advogada propõe que o Estado crie planos de emprego para milhares de jovens que hoje vegetam na órbita dos pais. Liberta do amplexo sufocante das famílias, a gente nova faria crescer o PIB. (Tal não resolveria a crise financeira mas iria ajudando a Grécia a aceitar o princípio da prestação de contas). Banfield teria gostado.

Esquecidos do mal que fizeram e de que boa parte da sua poupança se deve aos perdulários do Sul, os alemães querem hoje punir os europeus do "Club Med". Mas se o euro e a União griparem, a Europa (incluindo a Alemanha) será trucidada pelo resto do mundo. Kohl sabia isso e manteve tudo nos eixos. Mesmo que Merkel tivesse instintos certos, porém, de pouco lhe valeriam. A Alemanha profunda entretanto acordou e está a levantar-se do chão.

José Cutileiro

jpc@ias.edu 

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010