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Expresso

O mundo dos outros

Dois grandes enganos

O primeiro, sobre o mercado. A crise provocada pelo crédito hipotecário norte-americano e a árvore de Natal de produtos financeiros armada à sua volta está longe de ter acabado. Rodrigo Rato, presidente cessante do FMI, preveniu que poderá atingir economias até agora imunes e levar a uma recessão mundial, embora as economias emergentes, com China e Índia à cabeça, sejam uma fonte de estabilidade. (Os ocidentais, que passam a vida a pregar abertura e modernização a africanos e asiáticos, desta vez, enfiaram a carapuça.) Primeiro houve susto, depois pânico: a ruína de devedores vigarizados e a catadupa de carambolas levadas a cabo por chicos-espertos e por credores inocentes sacudiram a confiança no mercado. Os entendidos sabem que, se tivesse havido regulamentos capazes e gente a querer fazê-los cumprir nos Estados Unidos e na Europa, a crise teria sido evitada.

O público deixou de acreditar que o mercado possa corrigir os seus desvios. Engana-se mas a culpa não é sua: o mercado é um jogo cujas regras não são impostas pelos jogadores mas por autoridades financeiras que falharam abjectamente neste caso. Na crise iraquiana, a inépcia da Administração Bush desacreditara o recurso ao uso da força de que precisaremos para nossa segurança. Na crise hipotecária, com ajuda da Europa e de autoridades independentes, desacreditou a liberdade do mercado de que precisamos para nosso desafogo. Vai levar tempo até ir tudo ao sítio.

O segundo engano é sobre a Europa. A assinatura do Tratado de Lisboa animou políticos europeus que arrumaram dois anos de incerteza quanto ao futuro. O Tratado conserva o essencial da chamada Constituição e embora resolvendo alguns problemas cria outros: esperar que um presidente de União, um presidente de Comissão e um alto representante para a Política Externa trabalhem bem juntos é ousadia optimista. Para lá desta questão de terrenos, os governos nacionais ganharão força que a Comissão perderá, o que enfraquecerá a Europa. Mas tudo isto se irá corrigindo sem desastre - a União é como um automóvel de corda Schuco que eu tinha em pequeno: uma quinta roda, atravessada, nunca o deixava cair do tampo da mesa.

O engano de alguns políticos é outro. É pensarem que o mundo está à espera que a Europa lhe dê orientação moral e exemplo de convívio entre as nações. E que, arrumados os problemas internos, a União Europeia deverá entregar-se à sua vocação natural de salvar o mundo. Mesmo muitos que não pensam bem assim não perceberam ainda que a Europa não manda no mundo como alguns países europeus mandaram no século XIX, nem pode ter a ilusão de o fazer por Estados Unidos interpostos como teve no século XX até à crise do Suez. Não é para assegurar hegemonia moral do seu "soft power" que a Europa precisa de se unir. É para se defender melhor do poder ("soft" e "hard") de outros que lhe dão luta sem quartel. Quem assim não entender deve evitar a política e procurar conforto numa ONG complacente.

José Cutileiro