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Expresso

O mundo dos outros

Curdos e albaneses

A conferência de Versailles de 1919 ficou célebre por duas coisas. Por, graças à sanha do francês Clemenceau, ter imposto à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial condições de paz tão gravosas para os alemães que levaram por fim à eleição de Hitler e à Segunda Guerra Mundial. E por, graças ao entusiasmo idealista do americano Woodrow Wilson, ter feito brotar novos estados independentes das mantas de retalhos de culturas e religiões cozidas pelo Império Austro-Húngaro e o Império Otomano, criando instabilidades nefastas e duradouras no centro e sudeste da Europa e no Próximo-Oriente. Talvez seja menos sabido que nesse bodo dado a tantos grupos nacionais não foram contemplados nem curdos nem albaneses. Aos segundos Versailles manteve um estado independente, com bandeira, fronteiras, hino, tropa, mas que deixava de fora mais de metade da nação albanesa, espalhada por terras que são hoje da Sérvia, do Montenegro e da Macedónia. Aos primeiros nem isso: os curdos continuaram repartidos como antes da guerra, agora entre Turquia, Irão, Iraque e Síria, mais desprotegidos do que tinham estado porque o Império Otomano fora fragmentado em estados novos, inseguros e aguerridos.

Albaneses e curdos consideram essa sua exclusão do sapatinho de Natal Wilsoniano uma injustiça das grandes potências mal aconselhadas pela animosidade de vizinhos gananciosos e influentes. Os ditos vizinhos sustentam que quer curdos quer albaneses, divididos em clãs tradicionais constantemente desavindos, eram incapazes de se organizar a si próprios de maneira moderna e responsável, quanto mais de passarem a parceiros fiáveis no concerto das nações. Com a Albânia quase meio século sob o jugo ultra-estalinista de Hoxa e com os curdos oprimidos (no Iraque, gaseados) pelos estados onde se repartiam, assim as coisas foram ficando. Ao virar do século, porém, chegaram ventos de mudança.

Em 1999 a NATO, ao obrigar Belgrado a largar o controlo do Kosovo, reforçou anseios de independência e animou em guerrilheiros e intelectuais albaneses o sonho da Grande Albânia. Em 2003 os Estados Unidos derrubaram Saddam Hussein e deram aos curdos do Iraque palavra e poder como os dos xiitas e sunitas (já antes da guerra o território curdo fora protegido de Bagdade por aviação aliada). Estarão, uns e outros, à beira de obter o que lhes não foi dado em Versailles?

Duvido. Projectos americanos de saída do Iraque prevêem deixar presença militar no Curdistão iraquiano para desencorajar aventuras do Irão ou excursões punitivas da Turquia – mas toda a gente se oporia à criação de um estado curdo, que redesenharia fronteiras e roubaria território à Turquia, ao Irão e à Síria. Quanto aos albaneses, não vejo ao virar da esquina a independência do Kosovo, limitada e supervisada, mas mesmo que esta venha, veleidades de Grande Albânia são anátema para vizinhos e potências.

Justiça por fazer? Talvez. Mas não foi feita em Versailles e não vai ser feita agora.

José Cutileiro