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Expresso

O mundo dos outros

Coração, precisa-se

A bolsa de Xangai deu um trambolhão que sobressaltou bolsas americanas e europeias. Desta vez não foi nada mas recebeu-se um sinal. Anos atrás, crise na Tailândia disparara uma cascata de dissabores bolsistas por esse mundo fora - ora a Tailândia é a Tailândia, a China é a China (e quanto ao que esta será, ainda a procissão vai no adro). O problema para os europeus não é a globalização, com quem se davam bem desde a viagem do Gama à Índia. Os impérios português, espanhol, holandês, britânico, a França na Indochina e em África, os belgas no Congo tinham arrumado o mundo. Há uns cem anos apareceu a força da América que, livre do Kaiser em 1918, da Alemanha nazi em 1945 e da União Soviética em 1989 começou ela a mandar no mundo. A ascensão americana fez resmungar europeus - em França, o antiamericanismo é um hóbi nacional - mas dava jeito: os americanos eram uma espécie de europeus com sangue na guelra e, estando as respectivas economias entrançadas e a defesa comum nas mãos da Aliança Atlântica, ficava tudo em família.

O problema dos europeus é não serem eles a mandarem na globalização (ou, pelo menos, os americanos e eles). A deslocalização do poder está a acontecer ao ritmo do crescimento económico da Índia e da China. Os europeus barafustam: o ano passado, quando o indiano Mittal fez uma oferta hostil de aquisição da siderurgia luxemburguesa Arcelor, meteram-se, para tentar rejeitá-la, governos e até serviços secretos. Tudo em vão; Mittal ganhou. Os orientais rejubilam: quando, no fim de Janeiro, o Grupo Tata comprou, por mais de dez mil milhões de euros, o grupo anglo-holandês Corus, a euforia foi geral, com fogo-de-artifício e jornais a dizerem que a Índia voltava à importância universal que o colonialismo lhe roubara. Um actor de Bollywood declarou: "A Índia já não precisa de se proteger de produtos estrangeiros; em vez disso compra as companhias que os fabricam". Segundo sondagens, os indianos consideram que só os Estados Unidos são mais influentes do que a Índia. Ao lado, na China, vigoram ambição e optimismo parecidos.

A Europa percebe mal o que lhe está a acontecer. Por não entender que tamanho é também poder muita gente não quer deixar entrar a Turquia e depois a Ucrânia na União. Os governos nacionais nem sempre se juntam em áreas vitais da força e do prestígio da Europa - comércio internacional, energia, ambiente. Virados para dentro, entretêm-se entretanto a mudar os estatutos do clube. Regras novas ajudariam - mas não é por aí que o gato vai às filhoses.

O Kaiser de 1918, quando era ainda príncipe herdeiro, perguntou ao barão que o ensinava a montar o que era mais importante para saltar bem obstáculos: As características do cavalo? A técnica do cavaleiro? O tipo de selim e arreios?

"O coração, sire, o coração", respondeu o barão. "O resto vai atrás".

Farão sustos seguidos com China, Índia, Rússia, Irão, Al-Qaeda, aquecimento global bater de novo um coração no peito dos europeus?