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O mundo dos outros

Adeus Ucrânia?

José Cutileiro (www.expresso.pt)

Enquanto na Europa a desunião fazia a fraqueza e a Grécia se afundava, na Ucrânia, Vladimir Putin arriscou - e petiscou.

Desde Dezembro, os Estados-membros da União Europeia viam degradar-se diante deles a situação das finanças gregas não querendo perceber que a crise não era grega mas europeia. Quando, por fim, tiveram a coragem de acudir juntos, o mal tinha-se agravado tanto que as doses heróicas do remédio preciso haviam pelo menos triplicado. Habituados a que a Alemanha pregasse Europa e a pagasse, os outros grandes (e os pequenos), muito mais nacionais do que europeus, haviam sido incapazes de bater o pé a Angela Merkel que, por causa de eleições regionais, fora arrastando levantinamente a negociação. Quando dizia sim à mesa das conversas com os seus pares europeus, explicava depois aos alemães que tinha querido dizer não, animando oportunismo nos mercados, exacerbando nacionalismos e aumentando desconfiança e custos.

Felizmente há ainda optimistas lúcidos. Christine Lagarde, ministra das Finanças francesa - uma americana em Paris, Deus a conserve -, convencida, e bem, de que só juntos os europeus poderão pesar nos destinos do mundo, acha que a crise se transformou num trampolim para a Europa (estimulando e justificando esforços no sentido de uma governação económica da União).

Entretanto, na Ucrânia, Vladimir Putin avançou em força para afirmar a hegemonia russa. Aproveitando a instalação de um Presidente pró-russo, Viktor Yanukovich, em Kiev e o mau estado da economia ucraniana (que contraiu brutalmente no último ano), conseguiu obter extensão do foro autorizando a esquadra russa do Mar Negro a continuar estacionada na Crimeia por pelo menos mais 32 anos, a troco de uma redução de 30% no preço do gás russo exportado para a Ucrânia. (Peritos dizem que teria valido mais a pena a Yanukovich reduzir o consumo exagerado de gás do seu país - mas tal haveria dado muito trabalho). Depois, numa verdadeira blitzkrieg, Putin propôs na semana passada, primeiro, a fusão dos meios e capacidades de geração nuclear dos dois países e, passados dois dias, a fusão da Gazprom, companhia estatal de gás russa, com a Naftogaz, sua equivalente ucraniana. Mesmo Yanukovich foi colhido de surpresa e não disse logo que sim. Mas Yulia Tymoshenko, sua rival na eleição presidencial e ex-primeira-ministra, acusou-o de ter um plano de liquidação da Ucrânia como Estado independente: as fusões propostas levariam à unificação completa da Ucrânia e da Rússia.

A Ucrânia é crucial para a segurança europeia. Há cinco anos a União ajudou a Revolução Laranja a triunfar. A seguir, os dirigentes ucranianos pró-ocidentais desentenderam-se, quase paralisando o país, e os Estados-membros da União não se entenderam sobre a maneira de melhor lá defenderem o interesse desta. Sem arriscarem não petiscaram. Yanukovich foi eleito e Putin não perdoou.

A menos que a Ucrânia venha a partir-se em dois, a fronteira Leste da União Europeia ficou desguarnecida.

jpc@ias.edu

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010