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Miguel Sousa Tavares

Uma campanha triste

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)

1 Manuel Alegre não merecia o tratamento de penosa humilhação a que a sua candidatura está a ser submetida no PS. E certamente não merecia o enxovalho de personagens menores do PS, como José Lello. Mas, verdade se diga, foi o próprio Manuel Alegre que se pôs a jeito, cometendo uma série de erros de análise e decisões voluntaristas, certamente influenciadas pela memória do que foi a sua surpreendente campanha de há quatro anos.

Primeiro e determinante erro foi acreditar que o célebre milhão de votos de 2005 era realmente seu, como não se cansou de apregoar. Não era: parte era seu, mas a maior parte era o resultado de um momento e de circunstâncias em que o eleitorado queria alguém mais 'fora' da política partidária e a falar uma linguagem menos gasta. Em ruptura com o PS e o seu candidato oficial, Alegre apareceu como esse alguém, quase-independente, mas não suficientemente para ter ganho. Em 2005, um candidato verdadeiramente independente, vindo da esquerda, teria talvez derrotado Cavaco Silva. Agora, a circunstância é outra.

Não tendo percebido que o milhão de votos não estaria lá eternamente à sua espera, ele achou que podia voltar à sua 'família': ao PS e ao Parlamento. Não o devia ter feito: com isso, matou a imagem de quase-independente e colocou-se nas mãos do PS para uma nova tentativa, como agora se vê. Na qualidade de candidato oficial do PS, Alegre aliena a maior parte do voto que esteve com ele em 2005; mas, sem o PS, já é tarde para ter alternativa. É verdade que pode compensar os 'seus' votos que vai perder com os que irá ganhar entre os socialistas. Mas, nos tempos que correm, nada indica que o saldo seja favorável.

O segundo erro foi começar tudo pelos jogos tácticos, tentando seduzir desde logo o Bloco de Esquerda e algum eleitorado do PCP. Com isso, irritou grande parte do eleitorado PS, dividiu o do BE e não fez mossa alguma no do PCP. Tornou-se um candidato de partes de várias esquerdas, em busca de sucesso numa complicada operação de sobreviver à primeira volta, derrotando Fernando Nobre e evitando o K.O. de Cavaco, para depois reunir toda a esquerda, sociologicamente maioritária, e derrotar o actual Presidente. É certo que já assisti a um milagre em Presidenciais (em 86), mas neste não acredito.

Para azar de Alegre, a extrema-esquerda que ele resolveu cortejar esteve sempre militantemente contra os governos de Sócrates, o que o tem obrigado a um ziguezague constante, ora contra as medidas do Governo ora a favor das 'grandes linhas' de orientação do Governo. Escusado será dizer que isso não agradou a gregos nem a troianos e ser-lhe-á recordado a seu tempo. Sobretudo, deu aos seus adversários dentro do PS um argumento de peso, recordando que, enquanto o partido e o governo do partido atravessavam tempos terríveis a exigir o cerrar de fileiras, o candidato autodesignado do PS entretinha-se a cortejar a oposição e a rua.

O terceiro erro foi ter lançado a sua candidatura cedo de mais, sem olhar para a situação do país ou do mundo, sem perceber que os portugueses estavam (e estão ainda) interessados em tudo menos em ocupar-se da situação pessoal do candidato Manuel Alegre. Como na peça de Pirandello, Alegre aparece agora como um personagem em busca de autores a quem contar a história da sua candidatura. Mas, tal como estamos, ninguém viu com bons olhos a sua pressa, apenas determinada pela lição colhida da estratégia seguida por Jorge Sampaio, de se chegar à frente no PS, antes que alguém mais o fizesse. Mas, uma vez mais, são diversas as circunstâncias - no PS e, sobretudo, no país.

Paradoxalmente, penso que a grande ajuda que Alegre pode vir a receber para evitar a vitória de Cavaco Silva à primeira volta pode vir de... Fernando Nobre. Se Nobre conseguir arrancar com uma campanha minimamente consistente, ele irá entrar no eleitorado de Cavaco, além de recolher votos novos. E isso pode fazer a diferença que faltou em 2005 para evitar os 50% mais um voto de Cavaco Silva.

Quanto ao actual Presidente, confesso que seria a maior surpresa de mais de três décadas de democracia se ele não se recandidatasse. Primeiro, porque todos o fazem, parece que o poder é difícil de desentranhar. Depois, porque basta lembrar a fotografia de Cavaco Silva e a família subindo a rampa do Palácio de Belém no primeiro dia do mandato, para não alimentar dúvidas: aquele era, não o retrato de um Presidente tomando posse do seu cargo, mas de toda uma família tomando posse do palácio do poder. Na devida altura (para quem não tem necessidade nem vantagem alguma em mostrar pressa), Cavaco dirá que a situação do país não lhe permite afastar-se e abandonar o barco. E, uma vez recandidato, será, obviamente reeleito, porque, entre nós, nem o Pato Donald perderia a reeleição presidencial. Este é, junto com o de MNE, o cargo político mais fácil de exercer em Portugal, o que levanta menos riscos e o único que garante sempre dois mandatos completos ao seu titular.

Não deixa, porém, de ser eloquente que, pela primeira vez, o Presidente em funções tenha de enfrentar dois candidatos sérios e não apenas dois voluntários para o massacre. Quando Soares se recandidatou, o PSD nem se atreveu a apresentar candidato e o CDS fez avançar Basílio Horta para uma monumental tareia. Quando Sampaio se recandidatou, foi Joaquim Ferreira do Amaral quem se dispôs ao sacrifício anunciado. Mas, com Cavaco Silva, ainda há margem para especular se ele consegue ou não garantir a reeleição à primeira volta. A dimensão da sua vitória ou derrota política, que não eleitoral, resultará da comparação entre a percentagem que obtiver, comparada com a dos seus antecessores. É quase o único motivo de curiosidade de uma eleição ainda tão longínqua.

2 Se bem ouvi, Jaime Gama quer cortar nos chamados "custos da democracia": as subvenções aos partidos, aos grupos parlamentares e às campanhas eleitorais. Deve andar a ouvir os fóruns audiovisuais onde o 'povo', se o deixassem, acabava até com o Parlamento. Outros querem cortar no número de deputados, outros nos computadores do parlamento, outros na sala de fumo, enfim, está aberto um campeonato de demagogia e autoflagelação que, todavia, todos sabem, não resolve problema algum, apenas pode criar novos.

Valha-nos o general Valença Pinto, o chefe máximo das Forças Armadas. Enquanto, a sério ou a brincar, todos falam em cortar despesas, o general queixa-se de que as FA já estão falidas - e ainda vamos em Maio. Para ilustrar a situação a que se chegou, o general deu o exemplo do sistema de informações militares, que, segundo ele, não estará a funcionar, por falta de dinheiro, "em nenhum dos teatros em que temos forças". Confesso que, lendo a notícia, há várias coisas que me escapam: como é que as FA já estão falidas em Maio, se este ano receberam um reforço orçamental de 5,6%; como é que já há um buraco de 80 milhões nas despesas com pessoal das FA (quando, segundo uma fonte militar, "ele só costuma aparecer em Agosto"); como é que havendo, pelos vistos, um tradicional buraco nas verbas com pessoal, o "subsídio da condição militar" subiu nos últimos anos de 14,5 para 20%; como é que, faltando dinheiro, o general-comandante das FA, deixa que ele falte nos "teatros de operações" antes de faltar em tudo o resto; e como, enfim, é que um CEMGFA convoca uma conferência de imprensa para dizer isto em público.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010