Siga-nos

Perfil

Expresso

Miguel Sousa Tavares

Navegadores, diz ele

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)

Parece que o amachucado orgulho pátrio se recomporia de imediato com a campanha gloriosa que nos espera no Mundial de futebol. Num inquérito promovido por este jornal, e noutros idênticos de outros jornais, a maior parte dos inquiridos declarava solenemente que confiavam que a nossa selecção chegasse à final do Mundial. Ouvido na rua, nos fóruns de televisão e da Net, o povo também não tinha grandes dúvidas do anunciado êxito - de tal forma que até parecia que quem se atrevesse a duvidar não era suficientemente patriota ou português. Ensaiou-se repetir o clima de intimidação patriótica do Europeu de 2004, quando o brasileiro Scolari mandou povoar o país de bandeiras nacionais e chegou a insultar uma jornalista que lhe fez uma pergunta pouco 'patriótica' numa conferência de imprensa e os raros que não lhe prestaram vassalagem. E, muito embora desta vez o clima tenha sido bem menos pressionante e triunfante, manteve-se o tom de desconfiança larvar sobre aqueles que não manifestavam uma fé cega na excelência das capacidades dos nossos 23 rapazes para chegarem à África do Sul e levarem tudo à frente. Aliás, a coisa começou há dois anos atrás, quando o professor foi quase imposto por unanimidade nacional como seleccionador, desprezando-se as vozes dos poucos que ousaram lembrar que o professor tinha atrás de si um currículo de onde constava um êxito com uma selecção de miúdos, seguido de ininterruptos fiascos com graúdos, em várias partes do planeta, incluindo um fiasco anterior com a própria selecção nacional.

Mas lá nos classificámos para o Mundial, in extremis e quase em agonia, e logo passámos à condição de sermos um dos favoritos anunciados, porque tínhamos o Cristiano Ronaldo e a vontade indesmentível de ter êxito - coisa que para muita gente é condição bastante para o ter. Durante os dois anos da fase de apuramento e depois, nos chamados jogos de preparação, saltava à vista de qualquer um que não jogávamos nada, que não havia ali sombra de equipa ou de estratégia, que não havia sequer trabalho de casa suficientemente feito, que tínhamos uma dificuldade quase inultrapassável em marcar golos, bem demonstrada pelo facto de o próprio Ronaldo há 16 meses não conseguir marcar um. Que importa? Continuámos favoritos, autoproclamados como tal pelos jogadores, especialistas e povo em geral. Porquê? Porque sim, porque a pátria não se discute, como dizia o outro.

E assim embarcámos para África, com os egos enfunados e uma embaixada baptizada de "Navegadores" pelo próprio professor Queiroz - o qual tratou de informar a pátria de que tinha um feeling. Escreveram-se então páginas densas de portuguesismo sobre os Navegadores e o Adamastor, que de novo seria submetido e, no próprio dia do jogo primeiro, um jornal não se conteve e proclamou: "Heróis do mar!" Antes de ser, já o eram, bem à portuguesa.

As televisões e os jornais encheram-se de infindáveis e repetitivas reportagens do habitual: os menus que os dois cozinheiros da selecção faziam todos os dias, "e onde, obviamente, não podia faltar o indispensável bacalhau e o cabrito", os treinos abertos durante 15 minutos e "onde deu para ver que o ambiente é o melhor possível", as conferências de imprensa com as profundíssimas e interessantíssimas declarações dos "heróis do mar" e onde toda a novidade reside em descobrir as diferenças: nos penteados, nos brincos, nas tatuagens. Na véspera do jogo com a Costa do Marfim, apareceu, finalmente, qualquer coisa para contar, todavia preocupante: o professor estava apreensivo com a relva do estádio, com o vento e com a chuva. Parece que o adversário não ia enfrentar as mesmas contrariedades, aquilo era só entre os "navegadores" e os elementos, tal qual como a armada de Bartolomeu Dias. Mas estes navegadores, pelos vistos, bem menos destemidos, contra o vento e a chuva. Cabo das Tormentas, talvez, mas suave e sem tormenta.

Jabulani ao centro, sai Portugal. Bola para o lado, bola para trás; bola para o lado, bola para trás - assim, suavemente, durante os três primeiros minutos, só para mostrar ao que vínhamos. Era como se o Bartolomeu Dias tivesse zarpado de Belém, com toda a pátria a ver, e tivesse iniciado a sua aventura a fazer sucessivas manobras de virar de bordo no estuário do Tejo, sem pressa alguma de se fazer ao mar. E assim navegaram os navegadores durante hora e meia, com excepção de uma explosão do Cristiano Ronaldo que por pouco salvava a 'táctica' do professor. Uma interminável, imensa, intragável chatice. Uma hora e meia de intenso cagaço. Enfim, paciência, pensámos para connosco, é o primeiro jogo, isto vai melhorar logo a seguir. Mas o pior é que, logo a seguir, entrou em cena o professor e, aí sim, é que eu fiquei apreensivo.

Explicou Carlos Queiroz que, se tudo tinha acabado obviamente a zero, a culpa tinha sido do adversário, "que não quis assumir o jogo". E foi logo ralhando por antecipação com o próximo adversário, os malandros dos coreanos, que vão fazer igual (descobriu ele, depois de intensos estudos, análises, observação de vídeos e projecções técnico-tácticas). Graças a Deus, ele não é parvo e só isso é que nos safou de pior, bem pior. Então não é que o espertinho do Eriksson, o treinador nomeado há um mês para dirigir a Costa do Marfim, tinha planeado que a gente se aventurasse para a frente para depois ele nos apanhar em contragolpe? Ah, que grande malandro! Não fosse nós termos um treinador "inteligente", como ele próprio se definiu, e teríamos caído na ratoeira, como tantas vezes caem as equipas poderosas que ousam atacar as mais fracas! Vi, nessas explicações do professor Queiroz, o reviver do espírito imortal do manguito do Zé-Povinho a todos os espertinhos da vida que nos querem comer por parvos. Então, o Eriksson queria ver-nos a atacar? Ora, toma!

E os malandros dos marfinenses, mancomunados com a FIFA, que se atreveram a pôr o Drogba a jogar 15 minutos com uma tala a segurar o braço partido! Isso admite-se? Então o Nani faz uma luxação num ombro e logo o dispensamos de todo o Mundial, e o Drogba parte um osso, é operado e 15 dias depois já quer jogar contra nós? Isso é desportivismo que se tenha? E se ele tem enfiado uma cotovelada com a tala no Bruno Alves? Ou, pior ainda, se tem enfiado a bola na nossa baliza, com tala e tudo? Graças a Deus, tínhamos lá o professor para denunciar a tramóia e para que o mundo saiba que, para a 'táctica' do professor, é melhor um Drogba de fora do que meio Drogba dentro.

No dia seguinte à estreia dos "heróis do mar", julgava eu que todos estariam de ressaca, lá pela selecção, no mínimo amarfanhados com o coro unânime de desilusão que num repente se tinha sobreposto ao optimismo sem limites que antes era lei. Qual quê! Dois mil (esses, sim, heróicos) emigrantes foram assistir ao treino da selecção e sabem o que lhes disse o professor Carlos Queiroz? "Então, gostaram da equipa? Ficaram orgulhosos? Isso é que é importante!"

E foi então que eu fiquei mesmo apreensivo. Percebi que há um erro fundamental de interpretação do professor quanto ao mandato que lhe foi confiado. Ele acha que aquilo que vem mostrando é o bastante para manter a pátria orgulhosa. E que, se daqui não passarmos, há sempre desculpas e explicações que nos consolam e onde ele é emérito. Enquanto não nos matarem de vez, estamos vivos - e isso é que é importante. É assim que ele pensa. Segunda-feira que vem, contra a Coreia do Querido Líder, selecção nº 104 no ranking da FIFA, a nossa principal esperança é uma revolta a bordo ou uma manobra de génio do piloto principal, o Cristiano Ronaldo. Vá, heróis do mar, revoltem-se: a pátria agradece.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010