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Expresso

Miguel Sousa Tavares

Cidade e demagogias

1 António Costa inaugura amanhã uma das suas primeiras promessas eleitorais: o fecho do trânsito automóvel no Terreiro do Paço aos domingos. Trata-se de uma medida fácil de fazer e fácil de recolher aplausos, mas, correndo o risco de me enganar, prevejo que, a prazo, ela não traga nem mais gente nem mais interesse ao Terreiro do Paço. Não contesto os malefícios que os automóveis causam no trânsito, no ambiente, na qualidade de vida colectiva das cidades. Aceito e compreendo que haja restrições selectivas à sua utilização no centro das cidades, quando e onde tal se impõe e existem verdadeiras alternativas de transporte. Mas também não ignoro que o automóvel representa a mais fantástica conquista de liberdade e espaço individual, o mais útil instrumento da vida pessoal, familiar e profissional. Sempre achei que havia muito de falso modernismo, oportunismo político e demagogia nas cíclicas campanhas contra o automóvel – aliás, quase sempre desencadeadas por quem está habituado a deslocar-se em carro de função, com motorista ao volante e sem ter que se preocupar com a circulação ou o estacionamento. Se eu fosse o presidente da Câmara de Lisboa, e antes disso ministro do Governo, com carro do Estado e motorista ao meu serviço todos os dias, também não me custava nada proibir a circulação automóvel aos outros.

Acho graça, por exemplo, quando vejo os políticos a defenderem a bicicleta contra os automóveis. Seguramente que eles nunca tentaram andar habitualmente de bicicleta em Lisboa. Estão convencidos de que Lisboa é tão plana como Amsterdam, que existem oficinas para reparar furos em cada bairro e faixas de circulação reservadas para bicicletas nas ruas. Também nunca ouviram falar do envelhecimento populacional e julgam que todos os lisboetas são ciclistas em potência, ignorando ainda que uma lei absurda, saída há uns anos, proíbe transportar as bicicletas acopladas à mala traseira dos carros, obrigando-as a serem transportadas sobre o tejadilho, numa operação de colocação que requer o uso de um escadote e espaço na rua para o fazer.

Se António Costa quisesse verdadeiramente fazer alguma coisa de útil pelo Terreiro do Paço, tratava de dar ao Metro um prazo impreterível para terminar ou desistir das eternas obras do túnel à beira-Tejo, cuja necessidade imperiosa, aliás, está por provar. Terminar com aqueles vergonhosos tapumes que escondem o rio, pôr fim àquela incompetente empreitada que dura há uma década e devolver à cidade o Cais das Colunas e o Terreiro do Paço tal como ele era, isso sim, era um serviço prestado a Lisboa.

2 Os célebres radares da Dª Marina Ferreira, a ex-vereadora da mobilidade na anterior vereação, aí estão a espantar toda a gente. A mim não, que há meses que avisei que se preparava um assalto aos bolsos dos lisboetas, disfarçado com o politicamente correcto da prevenção rodoviária. Julgo que, por ano, morrerão umas doze pessoas em acidentes rodoviários em Lisboa: metade por atropelamento e o restante por acidentes com motociclos, ou causados por bêbados ou loucos em corridas ou incapazes ao volante, que sempre os haverá, com ou sem radares. Duvido de que os radares da Dª Marina Ferreira (que chegou a invocar "motivações pessoais" para a sua instalação) consigam evitar uma só morte que seja. Mas, em contrapartida, sacam duas mil multas por dia, entopem o trânsito e prometem entupir os tribunais, exasperam os condutores de bem e não é de excluir que venham eles próprios a ser causadores de acidentes, por distracções causadas ao volante naqueles que têm de circular a velocidade de carroça em vias rápidas. Nenhum motivo de segurança justifica os radares: trata-se de puro arbítrio da autoridade, um descarado assalto aos bolsos particulares em benefício dos cofres do Município e a criação de mais uns tantos empregos municipais, para a função de vigilantes de radares. É o perfeito exemplo dos malefícios da demagogia ao serviço da política.

3 Cidadãos utentes, jornalistas e críticos de ocasião, ficaram todos embasbacados com os benefícios causados ao trânsito pela entrada em funcionamento do túnel do Marquês. Daí partiram rapidamente para o elogio à "visão" de Santana Lopes e para o fuzilamento sumário de Sá Fernandes, culpado de ter feito atrasar uns meses as obras do túnel, com a providência cautelar que interpôs em tribunal, durante a sua construção. Permitam-me que diga que poucas vezes vi um caso tão exemplar de desinformação e manipulação.

Ninguém, jamais, contestou ou podia contestar que o túnel viesse beneficiar o trânsito. Que eu saiba, até hoje, não se construiu um túnel que prejudicasse o trânsito – pois se ele aumenta e sobrepõe faixas de rodagem e evita cruzamentos, que outro efeito pode ter, aqui ou na Cochinchina? O que se contestou, de início, foi se a relação custo-benefício justificava a obra. Ou seja, se o custo financeiro final (que ainda se ignora) e o tempo em que o trânsito na zona mais nevrálgica de Lisboa iria estar caótico, devido às obras, justificavam os benefícios posteriores. Porque é claro que, depois das coisas feitas, vale sempre a pena. Mas, e embora deva reconhecer que o caos foi bem menor do que eu temia, aqueles três anos de desconforto pagámo-los todos, dia a dia.

Posteriormente, Sá Fernandes veio contestar outra coisa e mais séria: a segurança do próprio túnel. Porque julgou ter elementos suficientes para questionar essa segurança, ele interpôs uma providência cautelar no tribunal administrativo. Se acreditava ter razão para tal, julgo que cumpriu o seu papel de vereador, que é o de proteger a segurança pública. E aconteceu que o tribunal lhe deu razão, ou seja, o tribunal entendeu também que essa segurança não estava garantida. Aqui, justamente, começa a manipulação desta história: não foi Sá Fernandes quem, por capricho, parou as obras do túnel; foi o tribunal, que entendeu que as suas objecções tinham razão de ser. E aconteceu depois que os projectistas foram obrigados a rever os planos, em função dos novos estudos de segurança mandados fazer pelo tribunal. Não foi Sá Fernandes quem fez atrasar a obra, foi a necessidade, reconhecida e imposta por um tribunal, de rever e reforçar os projectos em matéria de segurança da engenharia. Eu, pessoalmente, sinto-me mais tranquilo agora, ao passar no túnel, e só recordo que é por problemas de segurança e estabilidade, justamente, que o túnel do Terreiro do Paço está com anos de atraso. Estou convicto de que a inauguração do túnel em vésperas das eleições intercalares em Lisboa e a forma como a imprensa e a generalidade dos comentadores trataram o assunto e distorceram o papel de Sá Fernandes nele contribuíram decisivamente para afectar a sua votação nas eleições. Agora, que o bem e o mal já estão feitos, resta meditar na lição.