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Miguel Sousa Tavares

Céu nublado

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)

No fio da navalha: é assim que estamos. Ou como a orquestra do "Titanic", no último jantar a bordo, sem saber que iria ter de tocar pela noite fora, ao longo do naufrágio. Nesta altura do drama, creio que já todos estamos suficientemente assustados, com tantas más notícias caindo dia a dia. Mesmo aqueles que, por falta de condições, de hábitos ou de crença não jogam nesse jogo marcado que é a Bolsa de Lisboa, acabam a ouvir, preocupados, as notícias da montanha-russa em vigor, acabando a desejar que os "investidores", ou lá como lhes queiram chamar, façam as suas mais-valiazitas com as quais (e há tanto tempo!) se foram alimentado ilusões e enganando os males profundos de que padecemos. A Grécia contamina-nos, mas, mais do que isso, a Grécia assusta-nos. Porque há ali qualquer coisa de premonitório, tantas são as semelhanças comuns com os males de que padecemos. É verdade que não temos as 127 profissões de 'desgaste rápido' que permitem a milhões de gregos reformarem-se passados os 50 anos, nem temos o "subsídio de Páscoa" - uma das originalidades gregas a que a UE mandou pôr termo em troca dos 130 mil milhões. Não, não temos isso, mas temos a mesma fé, ou a mesma inabalável inconsciência, de que as regras da economia não se aplicam a todos por igual.

Nas ruas de Atenas - onde os trabalhadores em fúria mataram três colegas no seu local de trabalho com um cocktail molotov (atribuindo depois as responsabilidades às "medidas de austeridade") - a multidão ameaça derrubar o Governo socialista de Papandreou e matar assim à nascença o seu plano-limite para conter o défice e aceder às condições do empréstimo acordadas com Bruxelas e, sobretudo, com a Alemanha. Provavelmente, irão conseguir ambas as coisas, não é muito difícil. E, depois? Quererão os contribuintes portugueses, por exemplo, emprestar à Grécia 2000 milhões (o custo da nova travessia projectada para o Tejo), sabendo que a grande probabilidade é de nunca mais vermos o dinheiro? E, sem dinheiro, restarão à Grécia poucas e tristes alternativas: a falência e a saída do euro, o regresso a uma ditadura militar de "salvação nacional" e a saída da Europa, a aventura de experimentar a destempo o comunismo, que Churchill impediu na 25ª hora do pós-guerra... ou o caos.

Grécia, Portugal, Espanha e Itália, com graduações diferentes, comungam de vícios idênticos: a aposta no papel determinante do Estado na economia, que substitui a concorrência entre empresas, baseada no mérito, pela promiscuidade entre o público e o privado, fundada no favor e na influência política; o poder asfixiante dos lóbis e das corporações de interesses socioprofissionais, que mantêm cativo o poder de decisão e a capacidade de transformar e adaptar a economia às condições de cada momento; e a crença de que um Estado e uma nação que se habituaram a viver permanentemente acima da riqueza produzida estão em condições de enfrentar as crises e ter credibilidade no mercado onde então vão procurar os financiamentos de que necessitam.

Quando entrámos na UE, o ministro das Finanças da altura, Ernâni Lopes, anunciou "acabou-se o fado!". Mas, estranhamente ou não, a mensagem produziu exactamente o efeito oposto: "Agora, o fado vai ser subsidiado por Bruxelas". E foi, Deus sabe que foi! Anos a fio, programa a programa, sector a sector. Na década do agora inimigo das grandes obras públicas, Cavaco Silva, construímos sem parar: auto-estradas e hospitais, escolas e tudo mais. "O país está dotado de infra-estruturas!", proclamou-se, triunfantemente. E, de facto, o país precisava. O problema é que, enquanto se dotava de infra-estruturas para servir a economia, o país vendia a economia, a troco de subsídios para abate e set-aside: vendemos assim a agricultura, as pescas, as minas, a marinha mercante, os portos, as indústrias que podiam vir a ser competitivas - ficámos com os têxteis e o fado. E, quando alguém, subitamente, perguntou "de que vamos viver no futuro?", sorriram, com ar complacente. Então, não era óbvia a resposta? Iríamos viver dos serviços, do turismo, da "sociedade de informação" e... de Bruxelas.

Esta semana, Cavaco Silva, o mesmo, veio, mais uma vez, manifestar-se preocupado por ver o país lançar-se de cabeça em mais uma geração de grandes obras públicas, a pagar pelas gerações seguintes, e num momento em que se encontra completamente endividado e na iminência de ver o seu crédito esgotado nos mercados onde precisa de se financiar para sustentar a própria dívida. Muita outra boa gente também acha isto uma aventura perigosa. Mas, nesta mesma semana, a EDP avançou para o contrato da construção de uma megabarragem no Tâmega - uma de seis e que, como as outras, vai também, e infelizmente, destruir uma das mais bonitas paisagens do país, em troca de umas migalhas de kWs. O Ministério das Obras Públicas assinou mais um contrato para mais uma auto-estrada, cuja premente necessidade ninguém entende e com mais uma daquelas parcerias público-privadas que têm sido instrumento de ruína garantida para o Estado. Sócrates foi ao recomeçado túnel do Marão enfiar o capacete amarelo de cerimónia e repetir desengraçados clichés populistas sobre a zona e as obras públicas. E a semana terminou com a assinatura fatal do início do concurso para o novo aeroporto (que alguns propagandistas ou ingénuos ainda proclamam que é "sem custos" - como se as construtoras tivessem resolvido oferecer um aeroporto a Portugal. Também na Grécia, curiosamente, fizeram a mesma conversa e o novo aeroporto de Atenas acabou por dar uma contribuição importante para a ruína das contas públicas e da Olimpic Airways).

Não sei o que os mercados, os nossos credores, pensarão de nos verem lançar mãos à construção de um aeroporto, do TGV, de uma nova ponte em Lisboa, de seis barragens e mais auto-estradas. Eu sei que o nosso problema de fundo é o fraco crescimento económico e o desemprego: mas não acredito que o caminho seja este e que, mesmo sendo, este seja o tempo, como diz Sócrates. Pelos números oficiais, estas obras irão criar 63.000 postos de trabalho. Tirando os exageros habituais da propaganda, admitamos que são 50.000 e que, destes, metade será de portugueses e não de imigrantes que cá virão para fazer as obras e nada mais. Findos os trabalhos, todos os empregos desaparecem: não são verdadeiros empregos, são ocupações temporárias. A dúvida é, já que o Estado entende chamar a si o papel de motor da recuperação económica, se não seria melhor e mais útil investir na economia real, onde estão ou podem estar as pequenas empresas que duram mais do que uma conjuntura? Oxalá eu possa estar enganado, porque, se esta aposta de alto risco falha, não haverá segunda hipótese. Se a aposta falhar, as grandes construtoras do regime desaparecerão para mercados "emergentes" para os seus negócios e os responsáveis políticos pelo desastre cumprirão um breve período de resguardo em alguma sinecura de passagem, até reemergirem à superfície, no papel de "sábios" da economia, como alguns do passado, que agora vemos por aí. E nós, os nossos filhos, teremos as facturas a pagamento.

Valha-nos a nossa infinita capacidade de conseguirmos sempre encontrar o que nos distraia nos piores momentos. Na semana que entra, Portugal vai estar saudavelmente distraído com o Benfica campeão, o festim da visita do Papa e a continuação da palpitante novela parlamentar de apurar se Sócrates soube a 24 ou a 25 de Junho do ano passado que a PT queria, ou não queria, ou não sabia se queria, comprar a TVI. (A propósito: continua à venda.)

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010