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Miguel Sousa Tavares

A nação indispensável

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)

Madeleine Albright, que foi secretária de Estado do ex-Presidente americano Bill Clinton, disse um dia que os Estados Unidos eram "a nação indispensável". Na altura, logo após a implosão da URSS, a frase tinha uma conotação arrogante: os Estados Unidos anunciavam a emergência de uma era unipolar, em que eles ditariam as regras a que todos acabariam, de uma forma ou de outra, por ter de se submeter (a "Time" chegou a fazer uma capa onde comparava o Império Romano ao novo Império Americano). Depois, o mundo complicou-se, a China rebentou fronteiras, o extremismo islâmico pôs a América e o Ocidente em sentido, Bill Clinton compreendeu que o mundo era afinal interdependente e que os Estados Unidos o aceitavam assim, mas o seu sucessor, o inultrapassável idiota do Bush-filho, conseguiu criar tantos anticorpos contra a nação americana, que a frase de Albright perdeu-se no depósito das verdades provisórias.

Mas, por estes dias, olhando para o cenário apocalíptico dessa nação falhada e agora destruída, que é o Haiti, a frase regressa, como costumam regressar as verdades antigas: nos grandes momentos da história da humanidade, de há quase cem anos para cá, os Estados Unidos são, de facto, a nação indispensável. Algumas vezes para o mal, outras, como no Haiti, para o bem. Churchill, por exemplo, sabia-o bem: quando tomou posse do governo inglês para enfrentar Hitler, ao mesmo tempo que tentava sobreviver à guerra aérea que, nos céus ingleses, antecipava a invasão da ilha, ele concentrava todos os seus esforços a tentar convencer Roosevelt a entrar na guerra. Em 39-45, como antes, em 14-18, e depois, em 1991, na primeira Guerra do Golfo, a Europa e o Ocidente ficaram a dever a vida ao esforço de guerra da grande nação americana. É isso que explica o infalível apoio dos ingleses aos primos americanos, mesmo quando estes confundem as guerras necessárias e justas com as desnecessárias e injustificáveis - como Blair, não hesitando em mentir e falsificar informações, para seguir o imbecil do Texas na desastrosa aventura militar e política da segunda Guerra do Iraque.

O que tudo confunde é essa extraordinária capacidade para os contrastes que é uma imagem de marca dos Estados Unidos. Eles tanto são capazes de produzir um Roosevelt - que impõe ao povo americano a obrigação histórica de salvar a Europa do nazismo - como são capazes de produzir um George W. Bush, que impõe ao país uma guerra sem sentido, apenas destinada a servir a sua vaidade de se proclamar "um Presidente de guerra". Tanto são capazes de produzir um Bill Clinton, que restabeleceu a economia e a imagem externa dos EUA, como uma Sarah Palin, talvez futura presidente, cuja absoluta ignorância, estupidez natural e incompetência são mais perigosas do que dez Bin Ladens à solta.

Os Estados Unidos são a nação que é capaz de, num instante, mobilizar os meios e a determinação para acorrer a uma tragédia com a dimensão do Haiti e fazê-lo de forma eficaz, profissional e humana - enquanto a 'Europa', a tal entidade que nem número de telefone tem, ainda está a agendar reuniões para saber o que fazer, e a França (grande responsável histórica pela vergonha de país que é o Haiti), se queixa da ofensa à grandeur de la France, porque o exército americano, no aeroporto de Port-au-Prince, não deu prioridade de aterragem a um avião seu. Mas, enquanto Obama mobiliza Exército, Força Aérea, Marinha, reservistas e até os seus dois antecessores na Casa Branca para acorrer de imediato a salvar vidas no Haiti, o seu plano de saúde, destinado a evitar o escândalo de milhões de americanos morrerem por falta de assistência médica reservada a quem tenha seguros de saúde, está ameaçado de morte com a traição póstuma dos eleitores de Ted Kennedy, no Massachusetts, elegendo para o seu lugar vago um republicano, representante da mais obscura direita, que acha que um americano que não tem dinheiro para um seguro de saúde merece morrer na rua.

A direita americana, que se reclama dos valores morais dos founding fathers, tem, de facto, valores que repelem qualquer ser humano minimamente civilizado e que, quando no poder, tornam os Estados Unidos um ódio de estimação do planeta todo, desde as montanhas do Afeganistão, onde se esconde Bin Laden, até às mesas de café de qualquer cidade europeia. Eles acham que a "liberdade de informação" justifica que os servidores americanos da Internet não tenham de revelar o nome dos utilizadores que, a coberto do anonimato, se dedicam a difamar outros, em qualquer lugar do mundo e sem poderem ser responsabilizados; mas também acham que a Quinta Emenda lhes dá o dever moral de colocar na net, para os voyeurs do mundo inteiro, as confissões da menina Lewinsky sobre as suas actividades sexuais com o Presidente, já que este não cumpriu o seu "dever moral" de expor voluntariamente toda a sua vida íntima. Eles sabem, aliás, que todos os wasps da política republicana têm uma vida íntima secreta, enquanto se exibem ternurentos de mãos dadas com as mulheres, mas não perdoam que um negro seja o maior golfista de todos os tempos, milionário, casado com uma branca bonita e ainda tenha aventuras extraconjugais, e, por isso, depois de devassaram e exporem todos os seus pecados publicamente, estão à beira de internar Tiger Woods numa clínica de "recuperação do vício sexual" (onde, não sei por que misteriosas artes, o 'tratamento' passa por conseguir que ele viva dezoito semanas sem contactos nem "excitação sexual"). Eles sabem que a ganância dos seus banqueiros e gestores conduziu o país e o mundo à beira da falência e condenou centenas de milhões de pessoas ao desemprego e à miséria, mas, assim como antes achavam que o mercado era soberano e o governo não devia de forma alguma intervir, também agora acham que tentar regular o apetite dos tubarões seria cometer o sacrossanto crime de limitar a iniciativa privada. Eles sabem que essa gente sem escrúpulos está de volta ao business as usual e que de novo se distribuem entre eles ordenados e bónus milionários pelos resultados dos seus negócios que o dinheiro injectado pelos contribuintes permitiu salvar, mas recusam as tentativas de Obama para lhes taxar esses bónus indecorosos e assim recuperar parte do dinheiro que lhes foi emprestado pelos americanos. Eles sabem que alguns dos seus filhos têm às vezes o mau hábito de, quando estão mal-dispostos, sair para a escola com a arma do pai e matar os colegas a tiro, mas recusam-se a aceitar mudar a Constituição - que lhes garante, dizem, o ancestral direito de circularem no Farwest armados para se defenderem dos bandidos.

Mas, apesar de tudo isso, apesar de todos os seus contrastes, a América guarda ainda dentro de si uma grande dose de generosidade e de ingenuidade no que é essencial. Em muitas coisas, os Estados Unidos não são ainda uma nação gasta e por isso é que, quando o dever moral é evidente, eles não hesitam nem elaboram: "nos momentos de tragédia, os Estados Unidos avançam e ajudam - é o que somos, é o que fazemos", como disse Obama sobre o Haiti. E, enquanto Chávez e o ministro dos Estrangeiros da França se vão queixando já da "ocupação americana" do Haiti, os que estão no terreno e os que vêm de fora sabem bem que a única esperança para o Haiti é a presença americana. Não são os únicos que lá estão, mas são os únicos que o podem salvar, porque têm os meios, a vontade e a capacidade de organização para tal. A nação indispensável.

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010