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Expresso

Miguel Sousa Tavares

A morte do Islão

Nos jardins árabes do Palácio dos Reis Cristãos, em Córdoba, a água corre sem cessar, passando sucessivamente em cinco tanques de pedra, dispostos por patamares, e depois rega o 'horto' onde as roseiras hão-de florir na Primavera e as buganvílias de todas as cores hão-de cobrir os muros das escadarias. Ao lado das piscinas, duas alamedas de laranjeiras carregadas de frutos desenham o jogo de sombras e luz que é, a par da presença constante da água, o sinal distintivo dos jardins árabes. Ao fundo, e mais recuados, erguem-se os ciprestes majestosos por onde a luz penetra nas noites de luar e algumas palmeiras ondulam na suave brisa da manhã. O lugar é simplesmente mágico: não há nada a mais nem nada a menos, como se ali (ou nos jardins do Alhambra, em Granada) a perfeição estivesse para sempre reunida e toda a inquietação humana pudesse finalmente descansar para sempre. E não é por acaso: o Corão diz que o Paraíso é um jardim atravessado por um rio, e os arquitectos que desenharam os jardins do Al-Andaluz, como os que desenharam os jardins para o sultão de Marraquexe, quiseram dar aos seus senhores uma visão terrena do Paraíso que melhor os pudesse inspirar a serem justos e sábios na sua governação.

Ali próximo, naquela que outrora foi a mais esplendorosa mesquita de todo o mundo árabe, podemos testemunhar os efeitos culturais devastadores que a Reconquista cristã causou em toda a Península. Transformada pelos cristãos em mesquita-catedral, a fantástica beleza despojada da construção original, com as suas 988 colunas de mármore suportando as cúpulas de azulejos trabalhados em motivos geométricos, foi para sempre pervertida por essa ostentação oca das catedrais, com a sua profusão de altares, ouros, capelas laterais e estátuas de santos por todos os lados. E, pela enésima vez, penso nesse insondável mistério da história: porque é que uma derrota militar, e mesmo a retirada para o lado de lá do estreito, foi capaz de significar a morte de uma civilização tão brilhante quanto a civilização árabe da Península? Para onde foram os geógrafos, os cartógrafos, os físicos, os astrónomos, os matemáticos, os arquitectos, os construtores de jardins que fizeram o apogeu do Al-Andaluz? Que imensa nostalgia ou letargia pode justificar um tão grande sono de mais de quinhentos anos, durante os quais podemos contar pelos dedos de uma mão os árabes que deram um contributo notável ao avanço da ciência, da arte, da civilização humana?

A verdade é que, no mesmo ano da conquista de Granada, os Reis Católicos lançaram-se na aventura das Índias e, meia dúzia de anos depois, os portugueses lançaram-se à descoberta do Brasil e da rota marítima para a Índia. E esse foi apenas o começo de uma civilização que, desde então, não parou de avançar e de descobrir coisas novas, desde vacinas e tratamentos de doenças até à lua e ao espaço, da construção de cidades e países inventados no outro extremo do mundo até aos computadores e às telecomunicações instantâneas. E o que fez o mundo árabe durante todos esses séculos? Descobriu que tinha petróleo...

Penso nisso agora, também, ao ouvir as notícias de que, mais acima, em Barcelona, a polícia desmantelou uma rede terrorista da Al-Qaeda que se preparava para fazer atentados suicidas no metro de Barcelona. Uma dúzia de paquistaneses tinham atravessado meio mundo para virem matar inocentes, homens, mulheres, crianças, cujo crime é o de não se guiarem pelos mandamentos do Profeta. Que sentido faz isso, que legitimidade política pode haver no terrorismo islâmico? Como é que um livro sagrado, escrito há mil e quatrocentos anos, pode servir para legitimar a cobardia e a loucura terroristas? Como é que povos regra geral tão miseráveis, em estado de desenvolvimento económico e cultural tão lastimável, podem ter como desígnio primeiro bombardear as nossas cidades, fazer explodir os nossos transportes, ensinar às suas crianças nas madrassas o ódio e o resgate divino pelo terror, em lugar de se ocuparem em formar médicos, cientistas, poetas, dar às mulheres condições de dignidade humana, construírem cidades habitáveis com um mínimo de dignidade, dotarem-se de sistemas políticos em que o poder é escolhido pelos cidadãos e não usurpado por uma casta teocrática de barbudos que odeiam a vida e tudo o que representa o progresso e a harmonia que os seus antepassados celebraram no Al-Andaluz?

Podemos, se isso ainda fizer algum sentido para eles, pedir desculpa pelas Cruzadas - que foi um momento de barbárie e estupidez, como são sempre todos os actos ditados pelo extremismo religioso. Podemos pedir desculpa pela Palestina, pelos campos de refugiados de Gaza, por essa absurda invenção política que foi a criação do Estado de Israel nos territórios há séculos habitados pelos palestinianos. Podemos e devemos pedir desculpa por coisas tão idiotas e injustificadas como a invasão e a ocupação do Iraque, decidida por meia dúzia de políticos mentirosos e ignorantes. Podemos pedir desculpa por este capitalismo globalizado que transforma uma crise financeira causada pela ganância de alguns banqueiros americanos numa crise económica mundial que vai sobretudo atingir povos que tentam sair do subdesenvolvimento à custa de imenso trabalho e sacrifícios. Mas teremos de pedir desculpa também pela queda de Granada em 1492? Teremos de pedir desculpa por termos feito a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem? Por termos separado o Estado e a Igreja, por há muito termos abandonado o espírito das Cruzadas e da luta contra o 'infiel', por tratarmos as nossas mulheres em igualdade com os homens, ou por termos padrões de comportamento sociais e culturais que são diferentes mas que respeitam também a diferença do outro? Teremos de regredir à Idade Média para que os guardiões do Islão deixem de nos querer ver mortos e aniquilados?

Nos jardins árabes de Córdoba, nos pátios e muros do Alhambra, há uma promessa de eternidade que não foi cumprida pelos descendentes dos seus construtores. Onde estão hoje os jardins suspensos da Babilónia? Onde está a harmonia, o equilíbrio, a homenagem à vida que o Islão espalhou por toda a Andaluzia? Como é que deixaram que o Corão se transformasse num código penal irracional e num catálogo para terroristas? "Tu não verás nenhuma imperfeição na obra do Senhor" - qual é a obra do Senhor no 11 de Setembro, em Manhattan, ou no 11 de Fevereiro, em Madrid, na estação de Atocha?

E tudo isto para quê? Para reclamar uma pífia vitória: trazerem-nos cativos das suas ameaças, transtornar a nossa vida quotidiana à escala global, fazer do mundo outrora livre um mundo cada vez mais vigiado e policiado e fazer com que cada vez mais pessoas em todo o mundo associem o Islão à ideia de terrorismo e fanatismo? Não haverá ninguém, nenhuma voz autorizada e lúcida, no mundo islâmico que se dê conta de que o Islão se vem destruindo a si mesmo?