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O fascismo popular

Pensando bem, não sei se a esquerda — a esquerda que tradicionalmente manda na cultura — alguma vez quis dar cultura ao povo, no verdadeiro sentido da palavra dar. Desde Sartre até hoje, essa esquerda apropriou-se da cultura como coisa sua e fez dela uma coutada reservada a uma elite, onde, por definição, não entrava a direita, mas também não entrava o povo. Ao povo, a cultura era dada a mostrar — fosse através dos artistas oficiais, como nos regimes comunistas, fosse através daqueles que a elite da esquerda “culta” classificava como artistas. Essa esquerda preocupou-se sempre mais em promover os seus escritores, os seus músicos, os seus pintores, os seus cineastas de culto, do que em ver o povo a ler livros, a ver pintura, a ir a concertos ou ao cinema. Se um livro ou um filme eram populares, imediatamente a esquerda “culta” e os seus críticos de serviço tratavam de os remeter para o lixo do popularucho. “Um livro de que muita gente gosta não pode ser bom”, escreveu uma vez, sem pudor algum, um desses críticos literários portugueses. Essa esquerda elitista, classista, arrogante e auto-suficiente, contribuiu em muito para formar uma maioria popular que se afastou da cultura como coisa estranha e alheia e que encontrou nas redes sociais a terra fértil onde a sua incultura e a sua desinformação, longe de serem um anátema, se tornaram motivo de partilha e de orgulho militante. É essa mole humana de deserdados de muitas coisas, e também do acesso à cultura, que está a ajudar a formar o exército de sombras da nova Internacional Fascista, que partiu à conquista das democracias ocidentais através do voto popular.

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