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Expresso

Miguel Monjardino

Um aniversário cheio de possibilidades estratégicas

Dizem-me que os 50 anos são uma das melhores alturas para olhar para trás e avaliar o que foi conseguido. Dizem-me também que a experiência acumulada permite olhar para a frente com uma boa dose de realismo e de ambição. Se fizermos este exercício com a União Europeia o que vemos? Se nos lembrarmos do nosso terrível século XX, das nossas guerras, das nossas ideologias totalitárias, das câmaras de gás, dos campos de extermínio e de concentração e da enorme pobreza que rodeou o nosso longo suicídio entre 1914 e 1945 só podemos concluir que o Tratado de Roma é um dos maiores sucessos da história europeia. Quem é que há 50 anos acreditaria que em 2007 a Europa seria tão pacífica, rica e estável? Quem é que acreditaria que esta Europa se transformaria num importante farol político interno e externo? Provavelmente muito pouca gente. Isto merece ser relembrado, especialmente às gerações mais novas, e celebrado.

Olhando para a frente o que é que vemos? Problemas e crises dizem-me os mais pessimistas. E depois? Qual foi a época histórica em que não existiram problemas? A grande questão não é saber se existem problemas e crises pela frente mas sim discutir uma coisa muito diferente e bem mais importante - qual é o lugar que queremos que a Europa tenha na história das próximas décadas? A pergunta não é nova. Em Dezembro de 2003 a União Europeia publicou um documento sobre o assunto - 'Uma Europa Segura num Mundo Melhor. A Estratégia de Segurança Europeia.'

O aniversário que celebramos este fim-de-semana é um aniversário cheio de possibilidades estratégicas. O problema é que a estratégia é uma coisa que um número apreciável de europeus deixou de praticar. Todavia, se quisermos mesmo começar a discutir o nosso papel para as próximas décadas temos de pensar em termos estratégicos, ou seja, em objectivos políticos e meios disponíveis. A Estratégia de Segurança Europeia aponta três grandes objectivos para uma Europa que ambiciona vir a ser um actor global - (1) lidar com as ameaças do terrorismo, proliferação de armas não-convencionais, conflitos regionais e estados-falhados, (2) melhorar a segurança na vizinhança da Europa e (3) ajudar a construir uma ordem internacional baseada num multilateralismo eficaz. Estamos a falar de uma visão muito ambiciosa para o nosso futuro.

As visões são como as maratonas - relativamente fáceis de delinear mas particularmente difíceis de concretizar. A grande questão aqui é saber se os países europeus têm os meios e a vontade política para avançar por este caminho. Quando falo de meios, estou a falar de sociedades com demografias animadoras e economias dinâmicas. E também estou a falar de meios militares. Isto choca muita gente que ignora aquilo que é preciso ter e fazer para manter coisas extremamente apetecíveis e desejadas como a paz, a liberdade, a segurança e a prosperidade. A dura verdade para as próximas décadas é que uma Europa povoada de países e eleitorados com vocação para Cruz Vermelha e uma visão apenas piedosa das relações internacionais não terá capacidade para defender os seus interesses. Estas são as regras do jogo. Está interessado em participar?

Mulheres e o valor em combate

O quarto aniversário do início da guerra que levou ao derrube do regime de Saddam Hussein foi tudo menos feliz. Washington tem pela frente opções muito difíceis. Ficar implica pagar um preço humano, político e económico muito elevado. Sair pode implicar um preço ainda mais pesado. O número de refugiados no Iraque é imenso. No Congresso, Democratas e Republicanos continuam a discutir acesamente o que fazer no Iraque. No hospital Walter Reed, em Washington DC, a falta de cuidados e de atenção a soldados gravemente feridos em combate transformou-se num enorme escândalo político e deu origem a uma série de demissões. O número de livros e artigos publicados sobre os enormes falhanços políticos e burocráticos cometidos pela Administração Bush não pára de aumentar.

O que é que não vemos sobre o Iraque nas páginas dos jornais, revistas e nas televisões? Histórias sobre os militares americanos que desde há quatro anos combatem num Iraque implacável. Estes homens e mulheres desapareceram completamente dos nossos debates sobre o Iraque. Só pensamos neles quando queremos saber o número de baixas sofridas pelos EUA. Fora isso, transformaram-se numa coisa virtual para nós.

A guerra é sinónimo de violência e de atrocidades. É verdade. E muita da violência e atrocidades cometidas pelos militares americanos têm sido expostas e fortemente condenadas pela imprensa e televisão dos EUA. Mas a guerra também é sinónimo de enorme heroísmo, coragem e sacrifício em situações extraordinariamente perigosas. Temos esquecido isto. Os exemplos, todavia, abundam. Veja-se o caso de Lee Ann Hester, uma mulher de 23 anos da 617ª Companhia da Polícia Militar, Guarda Nacional do Kentucky. Hester foi condecorada com a Estrela de Prata, uma das mais altas condecorações do Exército dos EUA por valor em combate, pela sua reacção a uma emboscada nos arredores de Bagdade em Março de 2005. A Estrela de Prata não era atribuída a uma mulher desde a Segunda Guerra Mundial.

Miguel Monjardino