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Expresso

Miguel Monjardino

'Top gun'

O passado e o futuro do poder aéreo cruzaram-se esta semana. O mais curioso é que o passado teve mais destaque nos jornais e revistas nacionais e internacionais do que o futuro anunciado. Começando pelo passado. No final das manobras militares da Organização de Cooperação de Xangai, Vladimir Putin anunciou que a Rússia tinha recomeçado a fazer missões de patrulhamento aéreo com os seus bombardeiros nucleares. O anúncio de Putin tem uma clara dimensão política interna. E, tem, também uma dimensão militar que vale a pena ter em conta.

Do ponto de vista político, o anúncio do Presidente russo é uma importante manobra de propaganda interna. Do ponto de vista militar, o Kremlin quer começar a ser levado a sério depois de um período em que as suas Forças Armadas oscilaram entre o patético, o incompetente e o falido. Bombardeiros, ao que tudo indica armados com mísseis de cruzeiro nucleares, a voar bastante perto dos EUA e Canadá, têm a enorme virtude de chamar a atenção de toda a gente. O problema é que, além de os bombardeiros russos em questão serem bastante velhos, as suas tripulações estão mal treinadas. Acima de tudo, o anúncio de Putin representa um regresso ao passado, um regresso ao velho poder aéreo com capacidade para destruir indiscriminadamente. Este poder pode ser útil do ponto de vista político doméstico e internacional mas, salvo situações absolutamente excepcionais, é totalmente irrelevante do ponto de vista militar hoje em dia.

Os EUA têm uma paixão pelo futuro. Isto é particularmente visível na evolução do seu poder aéreo. Em Setembro de 1999, num discurso no Colégio Militar da Carolina do Sul, o então candidato presidencial George W. Bush defendeu que tinha chegado a altura de as Forças Armadas americanas saltarem uma geração de tecnologia, de maneira a poderem estar em condições de projectar poder militar de uma forma completamente diferente. Para Bush, era essencial poder ter a possibilidade de atacar com muita precisão alvos a grande distância. Bush sugeriu ainda que talvez fosse possível fazer isto com sistemas aéreos não-tripulados. Na altura, estes sistemas eram considerados irrelevantes em termos militares.

Sete anos depois, os sistemas aéreos não-tripulados passaram das margens para o coração do enorme poder aeroespacial dos EUA. Em 1999, a única função deste tipo de sistemas nas operações aéreas da NATO no Kosovo e Sérvia foi o reconhecimento. No início de 2001 pensou-se na possibilidade de, no futuro, armar sistemas aéreos não-tripulados para levar a cabo algumas missões. O futuro chegou poucos meses depois. No final desse ano, a guerra contra a Al-Qaeda e o regime talibã no Afeganistão transformou essa possibilidade numa realidade para a Força Aérea dos EUA e para a CIA.

De 2003 para cá, a guerra pelo Iraque tornou este tipo de sistemas indispensáveis para todos os ramos das Forças Armadas americanas. Actualmente, mais de mil destes sistemas voam catorze mil horas por mês nos céus do Iraque. Os resultados obtidos, as necessidades operacionais, a autonomia em termos de voo e a capacidade para apoiar complexas operações conjuntas do Exército, Marinha, Fuzileiros e Força Aérea explicam a grande inovação tecnológica do poder aéreo não-tripulado americano nos últimos anos. Ao contrário do velho poder aéreo nuclear russo, o novo poder aeroespacial dos EUA tem enorme utilidade militar e será usado intensamente em futuras operações. Há novos "top gun" nos céus.

Os trabalhos de Henry Paulson

Setembro promete ser o início de um período politicamente complicado para Henry Paulson, o terceiro secretário do Tesouro da Administração W. Bush. Ao longo do último ano, Paulson, um homem com enorme experiência económica e financeira em Wall Street, foi a cara de Washington em Pequim. Esta solução permitiu à Casa Branca e ao Departamento de Estado concentrar a sua atenção no enorme problema do Iraque. Paulson criou o 'Diálogo Económico Estratégico' para gerir os problemas e as inevitáveis divergências criadas pelo enorme crescimento da economia chinesa.

A capacidade do secretário do Tesouro continuar a ser o coordenador da política da Administração W. Bush em relação à China tem vindo a ser posta em causa por dois grupos de actores. De um lado, estão alguns departamentos governamentais em Washington que, ao contrário de Paulson, não estão muito interessados em continuar a abraçar Pequim. Do outro, está um Congresso que foi para férias com os seus membros mais influentes muito cépticos em relação à possibilidade de Paulson conseguir convencer os dirigentes chineses a revalorizar a sua moeda e começar a resolver os actuais desequilíbrios comerciais. Daqui a duas semanas, no regresso das férias, muitos congressistas estarão ainda mais cépticos. Infelizmente, estarão também mais proteccionistas.

Retórica e realidade

Quem tenha ouvido os decisores políticos e militares russos nos últimos meses deve ter ficado com a certeza de que a Rússia é totalmente contra a defesa antimíssil. A retórica política, todavia, visa muitas vezes iluminar pouco e esconder muito. A actual retórica russa não é tanto contra este tipo de defesas mas sim contra a construção de instalações militares americanas na Europa Central. O que preocupa os decisores russos é o reforço da aliança entre os seus antigos satélites no Velho Continente e Washington. A prova pode ser encontrada na MAKS 2007 que acaba amanhã em Moscovo. Um dos sistemas em exibição nesta importante feira e já declarado operacional para protecção da capital russa é o novo S-400, um sofisticado sistema de defesa aérea e antimíssil.

Miguel Monjardino