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Miguel Monjardino

Os novos descobrimentos europeus

Durante décadas soubemos muito pouco ou quase nada sobre a Ásia Central. No final de 1991, o colapso e a implosão da União Soviética criaram uma série de novos países na região, mas, por razões perfeitamente compreensíveis, os líderes europeus centraram a sua atenção no centro e leste do Velho Continente. A Bósnia e o Kosovo vieram a seguir e consumiram mais atenção e recursos políticos, económicos e militares.

Foi preciso o 11 de Setembro e a determinação do Kremlin em ver a Rússia ser uma superpotência energética para que os líderes europeus começassem a interessar-se por essa terra incógnita chamada Ásia Central. 2007 está a ser nesta matéria um marco importante para Bruxelas e para alguns dos mais importantes países europeus. As visitas de ministros e altos funcionários a países como o Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão e ao Quirguistão são uma espécie de novos descobrimentos europeus. A busca de alternativas ao nível do fornecimento de energia, interesses económicos, a longa luta contra os islamistas sunitas que têm usado o terrorismo como arma política, militar e religiosa e o combate contra o crime organizado e o tráfico de droga explicam a crescente atenção e viagens europeias. A atenção e as viagens reflectem também vontade de compreender quem é que garante a segurança numa região cada vez mais importante para os interesses dos países europeus.

A Ásia tem desempenhado um papel cada vez mais importante no crescimento da economia internacional. Partindo do pressuposto de que países como a China e a Índia conseguirão gerir os seus problemas internos, a importância económica e política da Ásia só poderá aumentar nos próximos anos. Paradoxalmente, o continente não tem ainda organizações políticas e militares robustas que garantam a sua segurança colectiva. Esta situação é particularmente evidente na Ásia Central, uma região tradicionalmente turbulenta onde velhas e novas fronteiras, oportunidades, interesses geopolíticos e ameaças coexistem. As manobras militares na Rússia e a cimeira política da Organização de Cooperação de Xangai (OCS) em Bishek, Quirguistão, que se realizaram esta semana são por isso importantes e intrigantes.

Importantes, primeiro por causa do tipo de manobras militares levadas a cabo. O número de tropas da Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão é bastante superior ao utilizado em ocasiões anteriores. A maneira como as manobras decorreram também tornou claro que Moscovo e Pequim estão acima de tudo interessadas em demonstrar aos EUA e à NATO as suas capacidades de projectar poder militar na região. Importante também pela crescente ambição da OCS de desempenhar um papel decisivo nas questões políticas, energéticas e militares da Ásia Central. Importante, finalmente, pelo facto de as manobras militares terem coincidido com a realização de uma cimeira em que participaram todos os líderes dos países membros da OCS.

Intrigante, acima de tudo, por causa desta coincidência temporal entre manobras militares e cimeira política ao mais alto nível. Uma coincidência deste tipo não acontece obviamente por acaso. Será que estamos a assistir ao nascimento de uma nova organização de segurança e defesa na Ásia Central? A resposta a esta pergunta não é ainda clara. Os países da OCS têm alguns interesses comuns na região. São, todavia, muito diferentes em termos de ambição e recursos políticos, económicos e militares. Dito isto, vale a pena pensar no tipo e conteúdo de relacionamento que Bruxelas e os países europeus devem ter com a OCS.

Alimentação e segurança

Com a bolha do crédito imobiliário nos EUA vieram os receios de mais um aumento das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu. Fora isso, continuamos eternamente preocupados com o preço do petróleo. Dois artigos publicados no caderno de Economia do Expresso da semana passada – Margarida Cardoso, 'A escalada do petróleo branco' e Carlos Martins, 'Alemães indignados' – chamavam a atenção para uma coisa bastante diferente – o aumento do preço do leite e dos lacticínios em Portugal e na Alemanha.

E depois? O que é que isto tem a ver com a segurança internacional? Muito! É que não estamos apenas a falar de Portugal e da Alemanha. Estamos a falar de algo que está a acontecer em todo o mundo. O preço do arroz, cereais, carne, lacticínios, queijos e fertilizantes tem vindo a subir regularmente por todo o lado nos últimos dezoito meses. O aumento do consumo em países com populações muito numerosas como a Índia e a China ajuda a explicar parte do actual aumento dos preços.

Robert Zeigler, director-geral do Instituto de Investigação Internacional do Arroz, defendeu recentemente que o problema é bem mais complicado do que parece. Segundo Zeigler, o aumento do preço do petróleo e a diminuição da produtividade e das áreas cultivadas são responsáveis pela maior diminuição de reservas de arroz desde os anos 70 e também pela duplicação do seu preço nos mercados internacionais.

Na sua coluna 'Worry about bread, not oil' (Sunday Telegraph, 29 de Julho), o historiador Niall Ferguson pergunta se nos estamos a "aproximar de uma nova era de miséria". Nos próximos 40 anos, a população mundial chegará aos nove biliões de pessoas. Para conseguir alimentar tanta gente, o fisiologista Lloyd T. Evans calculou que será necessário aumentar a produtividade ao nível da produção alimentar das actuais três para quatro toneladas por hectare. O problema é que o impacte das alterações climáticas na agricultura e o crescente uso de biocombustíveis diminuem ainda mais as áreas que podem ser usadas para produção agrícola. Na ausência de importantes inovações tecnológicas nos próximos anos, o preço dos bens alimentares só poderá continuar a subir.

Miguel Monjardino