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Expresso

Miguel Monjardino

Os herdeiros da cimeira do Atlântico

Conversar regularmente com alunos talentosos do ensino secundário é uma grande educação. O que tenho aprendido com estas conversas? Duas coisas que me parecem importantes. A primeira está relacionada com a idade dos alunos. Todos eles nasceram por volta de 1990/1991, numa altura em que a Guerra Fria já tinha acabado e a União Soviética estava a caminho do fim. Os intensos debates transatlânticos dos anos 80 são história para estes alunos. Winston Churchill, John F. Kennedy, Willy Brandt, Charles de Gaulle e Nikita Kruschov são, na melhor das hipóteses, figuras políticas nebulosas e distantes. As duas guerras mundiais, o suicídio europeu ao longo do terrível século XX e a ajuda dos EUA durante a Guerra Fria são pré-história.

Esta ausência de memória ajuda a explicar a minha segunda lição - a maior parte destas raparigas e rapazes tende a ter uma imagem muito negativa da Administração W. Bush e dos EUA. A ideia de que Washington é directamente responsável pela maior parte dos males que afligem o planeta é generalizada. Cheguei à conclusão de que estes alunos são os primeiros herdeiros da Cimeira do Atlântico realizada na base das Lajes, Açores, a 16 de Março de 2003. O acontecimento dominante na sua formação política foi e continua a ser o derrube do regime de Saddam Hussein e a guerra pelo Iraque. Coisas tão decisivas como a liberdade, a paz e a prosperidade são dadas como adquiridas para o futuro. Mas será que é mesmo possível manter o que temos sem um forte relacionamento euroatlântico nos próximos 15/20 anos? Por mim, tenho as maiores dúvidas. O euroatlantismo continua a ser essencial para os europeus, canadianos e americanos. O que fazer então com os herdeiros da Cimeira do Atlântico?

Uma vez que as imagens políticas da cimeira e do Iraque são tão fortes, o melhor é regressar às Lajes e ao que lá foi acordado. A Cimeira do Atlântico não discutiu apenas o Iraque. Aprovou ainda o ignorado 'Compromisso para a Solidariedade Transatlântica', um documento com uma visão para o futuro das relações euroatlânticas. Na altura, a conclusão de que "a amizade e a solidariedade entre a Europa e os Estados Unidos é forte e continuará a crescer nos próximos anos" deve ter parecido demasiado optimista a quase toda a gente. Mas, quatro anos depois, o euroatlantismo está mesmo de volta aos gabinetes ministeriais e diplomáticos.

O quarto aniversário da Cimeira do Atlântico é uma excelente oportunidade para começarmos a discutir o conteúdo de um novo euroatlantismo. Por duas razões. Primeiro, porque as enormes dificuldades de Washington no Iraque e o anunciado fim da Pax Americana não significam mais influência e poder para os países europeus. Significam menos influência para a Europa, especialmente se não conseguirmos começar a resolver os nossos problemas demográficos e de crescimento económico. Segundo, porque nas mais importantes questões de política internacional, Washington tem vindo a adoptar posições pragmáticas compatíveis com os interesses dos países europeus. A Administração W. Bush que os líderes e as opiniões públicas tanto desejaram chegou. A bola também está do nosso lado.

A vergonha de Vladimir Putin

A Rússia desempenha um papel importante na política internacional. É bom que assim seja. Dito isto, o assassinato de jornalistas é um sinal extremamente preocupante para o presente e futuro da Rússia. Desde a chegada de Vladimir Putin ao Kremlin em 2000 já foram assassinados catorze jornalistas. Apesar da enorme influência e poder de antigos membros dos serviços de informações no governo russo, até hoje ninguém foi detido, acusado ou julgado pelo assassinato dos seguintes jornalistas: (1) Igor Domnikov, 42 anos, jornalista, Novaya Gazeta, espancado até à morte, 12 de Maio de 2000; (2) Sergey Novikov, 36 anos, proprietário da Rádio Vesna, assassinado a tiro, 26 de Julho de 2000; (3) Iskander Khatloni, 46 anos, jornalista, Rádio Europa Livre, assassinado com um machado, 21 de Setembro de 2000; (4) Sergey Ivanov, 30 anos, director da Lada-TV, assassinado a tiro, 3 de Outubro de 2000; (5) Adam Tepsurgayev, 24 anos, operador de câmara, Reuters, assassinado a tiro, 21 de Novembro de 2000; (6) Eduard Markevich, 29 anos, editor, Novy Reft, assassinado a tiro, 18 de Setembro de 2001; (7) Natalya Skryl, 29 anos, jornalista, Nashe Vremya, espancada até à morte, 9 de Março de 2002; (8) Valery Ivanov, 32 anos, editor, Tolyattinskoye Obozreniye, assassinado a tiro, 29 de Abril de 2002; (9) Aleksei Sidorov, Tolyattinskoye Obozreniye, assassinado com uma picareta de alpinista, 9 de Outubro de 2003; (10) Dmitry Shvets, 37 anos, vice-director da TV-21, assassinado a tiro, 28 de Abril de 2003; (11) Paul Klebnikov, 41 anos, editor, Forbes Magazine, assassinado a tiro, 9 de Julho de 2004; (12) Magomedzagid Varisov, comentador, Novoye Delo, assassinado a tiro, 28 de Junho de 2005; (13) Anna Politkovskaya, 48 anos, jornalista, Novaya Gazeta, assassinada a tiro a 7 de Outubro de 2006; (14) Ivan Safronov, 51 anos, correspondente de defesa, Kommersant, morto após uma queda de um quarto andar no passado dia 2 de Março. Presidente Putin, isto é uma vergonha!