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Miguel Monjardino

O mundo euro-atlântico

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Que semana! "Poderá o euro sobreviver?" perguntava o "Financial Times" na sua primeira página na segunda-feira. No mesmo dia, Teerão anunciou que tinha chegado a um acordo com Ancara e Brasília sobre o destino de uma parte substancial do urânio produzido pelo seu controverso programa nuclear. A acreditar nas notícias, uma longa reunião entre os líderes do Irão, Turquia e Brasil terá selado os termos do acordo sobre um dos temas mais controversos da actual política internacional.

Se recuarmos alguns meses, ambas as notícias seriam impensáveis para a maioria dos decisores políticos e sociedades em Washington e nas capitais europeias. O que as notícias mostram é que estamos a viver uma nova fase na política internacional, uma fase que promete ser bem mais complexa do que tem sido habitual para Washington e os países da União Europeia.

O problema não são apenas as dúvidas sobre o futuro da zona euro. O problema é a conjugação daquilo que se está a passar na União Europeia com a situação fiscal dos EUA.

Após o enorme sobressalto do final de 2008, este último tópico tem sido estranhamento esquecido. Como esta coluna tem chamado a atenção, o problema fiscal de Washington é real e grave. Os EUA estão a viver muito acima das suas possibilidades e o Governo Federal assumiu compromissos que não pode pagar. Mais tarde ou mais cedo, os decisores e a sociedade americana terão de lidar com o problema.

Do lado de cá do Atlântico, as dúvidas em relação ao futuro da zona euro são grandes. Os Governos da União Europeia estão determinados a fazer o que for preciso para garantir a sobrevivência da sua união monetária. As medidas das últimas semanas permitiram ganhar tempo. O que não é nada claro, pelo menos para mim, é como é que sociedades com empresas pouco competitivas, dívidas externas muito elevadas e classes políticas que pelos vistos têm muita dificuldade em compreender como é que a economia internacional funciona hoje, vão reagir ao preço a pagar pela reforma da zona euro. Para países como Portugal, este preço será elevadíssimo.

Onde é que isto nos deixa? Deixa-nos mais fracos e ainda mais virados para dentro do que tem sido habitual na última década. Washington continuará a ser a capital mais influente na política internacional, mas terá de gastar muito capital político a resolver os seus problemas internos. No que toca à União Europeia, o Velho Continente continua a ser a casa de cinco das dez maiores economias mundiais - Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha - e de alguns dos países com melhor qualidade de vida a nível internacional. Dito isto, a principal preocupação de muitos governos europeus nos próximos tempos pode ser resumida numa única palavra - sobreviver. Pequim e Nova Deli confirmarão a sua avaliação de que os países do Velho Continente são hoje muito menos influentes.

Para países como Brasil e Turquia, esta situação representa uma grande oportunidade diplomática. Durante as últimas décadas, o papel de Brasília e de Ancara na política internacional foi marginal. Hoje não é. No início de 1999, Lawrence Summers, vice-secretário do Tesouro da Administração Clinton, gozava com a falta de credibilidade da moeda brasileira. No final do ano, a Turquia teve de pedir a ajuda do FMI para resolver uma grave crise financeira.

Esta semana, Brasília e Ancara tentaram negociar uma solução para o problema nuclear iraniano. O que é verdadeiramente significativo não é saber se o conseguiram - tenho as minhas dúvidas -, mas, sim, que o tenham tentado. A política internacional está a mudar no preciso momento em que os países europeus e os EUA enfrentam problemas considerados improváveis há uns breves anos. Como é que respondemos a tudo isto?

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anos depois das suas crises financeiras, o Brasil e a Turquia são capitais cada vez mais activas e influentes na política internacional. Os países da UE lutam pela sobrevivência da zona euro e Washington tem pela frente um problema fiscal.

Soluções

+ O pacto sobre a partilha de água do Nilo entre Etiópia, Uganda, Tanzânia, Ruanda e Quénia

- A baixíssima contribuição dos cientistas russos para a evolução da ciência a nível internacional

Pequim e o yuan

Na segunda e na terça-feira, o Diálogo Estratégico e Económico reunirá em Pequim altos funcionários da Administração Obama e do Governo chinês. Um dos temas em cima da mesa será o valor da moeda chinesa. A Casa Branca e o Congresso entendem que o yuan está subvalorizado em relação ao dólar e têm pressionado Pequim para alterar a situação. O problema é que a União Europeia é o maior mercado dos produtos chineses e, desde o início do ano, a moeda chinesa já se valorizou 14,5% em relação ao euro.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010