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Expresso

Miguel Monjardino

O momento decisivo para a China

Na madrugada de 28 de Julho de 1976, a cidade de Tangshan no nordeste da China, foi completamente arrasada por um terramoto. Centenas de milhar de pessoas morreram quase instantaneamente. Em Pequim, os decisores políticos ignoraram de uma forma escandalosa os mortos, feridos e vivos em Tangshan. A ajuda externa foi rejeitada e a verdadeira dimensão da catástrofe escondida do resto do país.

A desastrosa reacção de Pequim ao terramoto em Tangshan teve enormes consequências políticas. A mais importante foi a queda dos chamado 'Bando dos Quatro' e o fim da Revolução Cultural que arruinou completamente a China. Um mês e meio depois, Mao Tsé-Tung morreu, muito céptico em relação ao futuro do regime que ajudou a fundar, em 1949.

Ao contrário do que Mao pensou, nas décadas que se seguiram, o regime chinês mostrou uma extraordinária capacidade para se manter no poder e transformar o país a uma velocidade estonteante. Se olharmos para as últimas décadas, vemos que a enorme maioria dos chineses nunca viveu tão bem como agora. Esta situação ajuda a explicar o optimismo e a confiança em relação ao futuro que se sente no país. 2008, com os Jogos Olímpicos, devia ser o ano em que a elite política chinesa relembraria à sua sociedade e ao mundo os benefícios de um regime autocrático. O problema, como costuma acontecer na política interna e externa, têm sido as surpresas - as cheias no Inverno e os protestos no Tibete.

O terramoto na província de Sichuan é a última surpresa a abater-se sobre a sociedade e o Governo da China. A maneira como os mais altos responsáveis chineses têm vindo a gerir o desastre de Sichuan mostra que o fantasma de Tangshan está bem presente nos gabinetes governamentais em Pequim. Este fantasma explica a decisão destes responsáveis de usar os trágicos acontecimentos desta semana como um teste à sua competência e legitimidade interna.

Vendo bem, os decisores chineses não têm alternativa. As livrarias, as revistas e os jornais internacionais estão cheios de livros, ensaios e artigos sobre a rápida e imparável marcha chinesa em direcção à grandeza internacional. Esta marcha tem vindo a causar uma mistura de choque e pavor na Europa e nos EUA. De fora desta narrativa ficam a turbulenta história do país e importantes desafios sociais e económicos. Há muita coisa que ainda não é possível saber sobre o que aconteceu nas pequenas cidades, vilas e aldeias de Sichuan. Dito isto, os decisores chineses sabem melhor do que ninguém que um dos primeiros efeitos deste terramoto foi tornar bastante mais clara a verdadeira dimensão de uma série de problemas altamente políticos no interior do país. A credibilidade e a influência do regime dependem da sua capacidade para resolver estes problemas no futuro.

Um dos problemas mais importantes é de longe o da disparidade de rendimentos. Nas últimas duas décadas, a economia chinesa cresceu a uma média anual de nove por cento. Isto permitiu um enorme aumento do rendimento familiar ou individual disponível e uma das maiores reduções da pobreza extrema da história. O problema para Pequim é que este aumento foi muito mais elevado nas grandes cidades, onde vive praticamente toda a nova classe média chinesa, do que nas zonas rurais. Gerir as expectativas da classe média ao nível de empregos, habitação, escolas, saúde e infra-estruturas é crucial para o futuro do regime. As zonas rurais, todavia, não podem ser esquecidas. Nessa China que pouco conhecemos e vemos vivem cerca de 850 milhões de pessoas. Só para termos uma ideia do que estamos a falar, a União Europeia tem 490 milhões de habitantes e os EUA 300 milhões.

Ao longo dos últimos anos, a liderança chinesa tem vindo a chamar a atenção para este problema e para as suas consequências políticas e económicas. A corrupção, a poluição e o aumento da inflação têm vindo a agravar estas disparidades. O terramoto em Sichuan mostra o preço deste estado de coisas no interior do país. A maneira mais rápida de ver isto passa por comparar a engenharia e a arquitectura dos edifícios em Pequim com a das cidades e vilas de Sichuan. Em Pequim estão a acabar as últimas obras de um programa de construção extraordinariamente ambicioso. Este programa tem grande qualidade ao nível da engenharia e da arquitectura. Em Sichuan, a qualidade da engenharia e da arquitectura são muito diferentes das da capital. Esta discrepância ajuda a explicar o número de mortos, feridos, desalojados e a destruição na província chinesa.

2008 e os Jogos Olímpicos celebram o que a China conseguiu fazer nos últimos 30 anos. Sichuan relembra aos decisores em Pequim o que ainda falta fazer.

A grande conversação deve voltar à escola

Em tempos não muito distantes, ler, discutir e escrever sobre os grandes livros da tradição intelectual europeia era uma das coisas mais importantes para as melhores universidades do Velho Continente e dos EUA. Esta grande conversação entre o passado e o presente era vista como essencial para preparar o futuro dos indivíduos, famílias e sociedades. Durante as últimas décadas, a grande conversação foi abolida ou exilada na maior parte das universidades euro-atlânticas. Anthony T. Kronman, professor na Universidade de Yale, defende o seu regresso para o centro da missão da universidade no livro 'Education's End. Why Our Colleges and Universities Have Given Up on the Meaning of Life' (New Haven: Yale University Press, 2007). Uma ideia crucial numa época como a nossa tão marcada pela mudança tecnológica e a inovação.

Miguel Monjardino