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Miguel Monjardino

O futuro da agricultura e da água

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Lembrei-me disto ao ver o índice de matérias-primas agrícolas do "Economist" e as previsões do crescimento económico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicadas esta semana. O índice do "Economist" mostra um aumento dos preços agrícolas de uma base de 100 em 2000 para 199 em 2010.

A OCDE prevê que a economia dos EUA cresça 3,2% este ano. A zona euro crescerá uns tímidos 1,2%. Se olharmos para a China, Índia e Brasil, os números serão muito diferentes - Pequim crescerá 11%, Nova Deli, 8,3% e Brasília 6,5%.

Os dados da OCDE indicam que mais de 50% do produto mundial são actualmente gerados fora do mundo euroatlântico. A manter-se a tendência da última década, a Europa, EUA e Canadá verão o seu produto duplicar nos próximos 40 anos. No resto do mundo, quintuplicam. Como Jack Goldstone chama a atenção na "Foreign Affairs" de Janeiro/Fevereiro, em 2050 o mundo euroatlântico produzirá apenas cerca de 30% da riqueza mundial. É preciso recuar até 1820 para encontramos um número semelhante.

O que mostram mais os números do "Economist" e da OCDE? O que me chamou a atenção foram as implicações para a agricultura e para o consumo de água nas próximas décadas.

O aumento dos preços das matérias-primas agrícolas deve muito ao crescimento económico na Ásia, América Latina e África. Tal como aconteceu na Europa, EUA, Canadá e Japão, as populações dos países com maiores taxas de crescimento económico querem comer mais e melhor. O crescimento da classe média mundial e a urbanização exigem uma agricultura muito mais produtiva do que aquela que temos.

Nos últimos anos, não pensámos muito neste assunto. Os aumentos da produtividade agrícola transformaram-se numa espécie de direito adquirido das sociedades mais prósperas do mundo. Malthus e as suas preocupações sobre a tensão entre os níveis de produção agrícola e o aumento da população tornaram-se uma curiosidade para alguns economistas e historiadores. Mas, como estamos a descobrir muito rapidamente, os direitos adquiridos podem ser uma coisa efémera. Poderá acontecer o mesmo na agricultura?

Os números sugerem que os investimentos na investigação agrícola a nível internacional têm baixado nas últimas décadas e que os níveis de produtividade não estão a acompanhar o aumento da procura; mostram também que a agricultura exige cada vez mais água. O aumento da população mundial dos actuais 7 para 9 milhares de milhões de pessoas em 2050 complica ainda mais as coisas.

Como John Grimond argumenta no "Economist" da semana passada, o problema da água é a sua distribuição geográfica. O Brasil, o Canadá, a Colômbia, o Congo, a Indonésia e a Rússia têm imensa água. No lado oposto estão a China e a Índia, países com mais de um terço da população mundial mas com pouca água nos seus territórios. A evolução do clima sugere que haverá mais secas na Europa do Sul, no Médio Oriente, na Patagónia, no norte de África e no sudoeste dos EUA. Outras zonas terão mais água e mais cheias.

A agricultura e a água são hoje em dia quase sinónimo de guerra para muitos académicos, decisores políticos e responsáveis de instituições. O que estas pessoas vêem quando olham para as próximas décadas é uma tempestade perfeita causada pela fome e por falta de água crónica. Confesso que tenho muitas dúvidas. Do que não tenho dúvidas é da necessidade de gerir com muito mais cuidado tudo o que esteja relacionado com a agricultura e a água.

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mil milhões de pessoas. A evolução da demografia e da economia internacional mostram que temos de olhar com muito mais atenção para as questões da agricultura e da água. A alternativa é reencontrarmos Thomas Malthus

A abertura do consulado da Turquia em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano. Ancara está a preparar a visita de Massoud Barzani

A dificuldade da União e da NATO em cooperarem na manutenção da segurança internacional

Wen Jiabao em Seul

A Coreia do Norte regressou ao passado ao torpedear a "Cheonan", uma corveta da Coreia do Sul. A grande questão é saber porquê. Especialmente para os decisores chineses. Kim Jong Il e o seu regime só sobrevivem graças ao apoio da China que, apesar de todas as tropelias do seu aliado, preferem a actual situação ao colapso da Coreia do Norte e à futura unificação da península. Pequim também quer manter boas relações com a Coreia do Sul. Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, esteve ontem em Seul.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010