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Expresso

Miguel Monjardino

O colapso do poder naval europeu

Na zona dos antigos estaleiros navais de Vila do Conde está a réplica de uma das naus que levaram Vasco da Gama e mais cento e cinquenta portugueses até à Índia em 1497/1498. Há quinhentos anos as naus de Vasco da Gama foram grandes exemplos de inovação tecnológica e de capacidade para projectar poder e influência política a enormes distâncias. Portugal teria sido muito diferente sem elas. Nos séculos que se seguiram, os países e as opiniões públicas europeias também viram no poder naval um instrumento essencial para a defesa dos seus interesses estratégicos, comerciais e religiosos.

Ao olhar para a réplica da nau de Vasco da Gama pensei na enorme epopeia que foi a viagem até Calecute. Pensei também na importância do poder naval ao longo da história europeia. E, aqui, apercebi-me de algo estranho. O poder naval e tudo o que o rodeia desapareceu completamente das páginas dos nossos jornais, revistas, rádios e televisões. No resto da Europa passa-se exactamente o mesmo. Como explicar isto?

O Afeganistão e o Iraque ajudam a explicar parte do progressivo desaparecimento do poder naval do nosso dia-a-dia. Nesses países, as operações militares são acima de tudo operações para os exércitos e forças aéreas dos EUA e países da NATO. Do ponto de vista das opiniões públicas europeias, as marinhas têm desempenhado um papel entre o invisível e o marginal nessas operações. Todavia o Iraque e o Afeganistão não explicam tudo. A verdade é que praticamente todos os governos europeus gastam e agem como se o poder naval tivesse deixado de ser importante do ponto de vista político e militar. O colapso do poder naval europeu pode ser invisível mas é real e notável do ponto de vista estratégico. Notável, para começar, porque os EUA não mostram a menor intenção de nos imitar. Notável também, por causa do que está a acontecer na China, Índia e Japão.

A modernização da marinha chinesa está na sua fase inicial mas é vista em Pequim como crucial para a defesa dos seus interesses, não só no Pacífico mas também no Índico e Golfo Pérsico. Nos anos que aí vêm, o grande destino das exportações sauditas de petróleo não serão os EUA mas sim a China. A crescente visibilidade dos investimentos chineses em Myanmar, Bangladesh, Sri Lanka e Paquistão são excelentes exemplos dos interesses navais chineses na região que vai do Índico até praticamente à entrada do Golfo Pérsico. No Japão está em curso um grande programa de construção naval e a marinha japonesa tem prestado um papel importante no apoio logístico às operações na NATO e EUA no Afeganistão. O caso mais ignorado entre nós, todavia, é o da Índia. De Madagáscar, a Moçambique, passando pelas Maurícias, Seicheles, estreito de Malaca e Golfo de Omã, a marinha de Nova Deli está mais activa do que nunca no Índico. Tal como acontece com o Japão e a China, a Índia vê no poder naval um instrumento essencial para a protecção das suas linhas de comunicação e dos seus interesses comerciais e energéticos.

Na Ásia, o poder naval é considerado indispensável. Os governos dos países europeus parecem ter chegado silenciosamente à conclusão oposta. A réplica da nau de Vasco da Gama em Vila do Conde tem o enorme mérito de nos forçar a questionar se esta conclusão é realmente sensata do ponto de vista estratégico.

O regresso da Turquia

Discutir a possibilidade e as consequências da entrada da Turquia na União Europeia foi um tópico extremamente importante nos últimos seis anos. O 11 de Setembro foi uma grande prancha política para Ancara e para os partidários da sua entrada na União Europeia. As dúvidas e as hesitações vieram a seguir. As eleições de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy parecem ter assinalado o fim da ideia. E com 2007 veio a ideia de que, sem a União Europeia, a Turquia está destinada a ter um papel menor na política internacional. Afinal de contas ouvimos falar da Turquia apenas por causa dos seus problemas internos ou então por causa das ansiedades dos militares de Ancara em relação às actividades do PKK no curdistão iraquiano.

Os europeus que ignoram ou desvalorizam a importância política da Turquia cometem um grave erro. Primeiro, por uma razão que é normalmente ignorada sempre que se fala do país na maior parte das capitais europeias. Longe dos nossos olhares, a economia turca tem vido a crescer consistentemente acima dos cinco por cento durante os últimos anos. Este crescimento transformou a Turquia na maior e mais dinâmica economia muçulmana e garantiu a entrada do país no grupo das vinte maiores economias mundiais. Este crescimento não está assegurado, é certo, mas a Turquia já é hoje a maior economia no Mediterrâneo oriental, Médio-Oriente e Cáucaso. A ascensão da economia turca tem sido silenciosa mas não pode continuar a ser ignorada.

Acima de tudo, e este é o segundo ponto que é crucial reter, porque um crescimento económico deste tipo não deixará de ter importantes consequências políticas no relacionamento da Turquia com os seus vizinhos. Aqui, as últimas décadas não são um bom guia para o que aí vem. O colapso do império otomano, a fundação da Turquia, a influência de ingleses e franceses no Médio-Oriente, a Guerra Fria e a ascensão regional dos EUA contribuíram para diminuir drasticamente o papel político internacional de Ancara. As importantes mudanças que estão a actualmente a decorrer no xadrez político regional são uma enorme oportunidade para a Turquia voltar a desempenhar o seu papel histórico.

Miguel Monjardino