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Expresso

Miguel Monjardino

Na sombra do Iraque

No início do seu livro 'O Mundo é Plano' Thomas Friedman escreve que antes do 11 de Setembro estava acima de tudo interessado em explorar a tensão entre as forças da integração económica e as da identidade e nacionalismo. Esse interesse levou-o a escrever 'O Lexus e a Oliveira'. O 11 de Setembro levou o influente colunista do 'New York Times' a dedicar quase todo o seu tempo às forças da identidade e nacionalismo no mundo árabe e muçulmano e a perder o contacto com o que estava a acontecer com a globalização. Friedman reencontrou a pista da globalização numa viagem à cidade indiana de Bangalore, em Fevereiro de 2004.

Lembrei-me muito desta passagem durante a semana quando procurei saber os planos de viagem dos mais altos responsáveis da Administração W. Bush. Fiquei a saber que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, e o secretário de Defesa, Robert Gates, fizeram uma inédita viagem conjunta ao Médio Oriente e Golfo Pérsico. Também fiquei a saber que Rice cancelou a sua presença na reunião da próxima semana da Associação de Nações do Sudeste Asiático e que o secretário do Tesouro, Hank Paulson, se fez representar pelo seu número 2 Bob Kimmit na reunião dos ministros das Finanças da APEC.

As viagens que foram ou estão a ser feitas e aquelas que foram canceladas pelos decisores norte-americanos mostram claramente que o Iraque é a principal prioridade da Administração W. Bush para os próximos meses. É evidente que o futuro do Iraque, Golfo Pérsico e Médio Oriente é muito importante para os EUA. Mas também é óbvio que apesar dos enormes recursos militares, económicos e políticos canalizados pela Administração americana para o Iraque, a Ásia continua a ser extremamente relevante em termos geopolíticos e geoestratégicos para Washington. Parafraseando Thomas Friedman, este é um tema que temos esquecido ou a que, se calhar, temos prestado menos atenção nos últimos anos.

O melhor exemplo da enorme importância da Ásia na grande estratégia dos EUA veio na semana passada com o anúncio do final das negociações entre Nova Deli e Washington sobre o acordo de cooperação nuclear. O acordo prevê trocas comerciais ao nível de tecnologia, combustível e reactores nucleares e permite à Índia reprocessar o seu próprio combustível nuclear. O anúncio do acordo tem sido atacado por influentes Democratas do Congresso e pela comunidade de controlo de armamentos em Washington uma vez que garante o acesso da Índia – um país que se recusa a subscrever o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e a comprometer-se publicamente a não desenvolver e testar armas nucleares – a combustível e tecnologia nuclear. Além disso, o acordo é visto como um péssimo precedente tendo em conta que o Irão poderá exigir um tratamento semelhante.

O acordo mostra bem a enorme evolução da relação entre Washington e Nova Deli nos últimos anos. A Índia foi uma das grandes apostas da política externa da Administração W. Bush. O fim do isolamento nuclear indiano é o preço que a Casa Branca está disposta a pagar para catapultar a relação entre os EUA e a Índia para um nível substancialmente diferente do actual. A ascensão da Índia como potência regional asiática com crescentes responsabilidades navais no Índico é essencial para os decisores indianos e norte-americanos. A crescente convergência de interesses entre as duas maiores democracias do mundo é um enorme acontecimento político que tem sido ofuscado pela situação no Iraque.

O sucessor de George Kennan?

Há sessenta anos a revista norte-americana 'Foreign Affairs' publicou um ensaio intitulado 'As Fontes da Conduta Soviética.' Assinado por um misterioso 'X', o ensaio argumentava que a melhor maneira de os EUA derrotarem a União Soviética e a ideologia comunista passava pela sua contenção. O ensaio e as suas propostas para a política externa da Administração Truman deram origem a uma enorme discussão. Não foi preciso muito tempo até que o nome do autor do ensaio, George Kennan, um alto funcionário no Departamento de Estado, fosse conhecido. No seu ensaio, Kennan foi ambíguo em relação ao significado e conteúdo da contenção contra a União Soviética. Todavia, isso não impediu que a expressão fosse adoptada por sucessivas administrações norte-americanas durante a Guerra Fria e que o seu ensaio tivesse enorme influência na política externa de Washington.

O 11 de Setembro deu origem a enormes debates sobre as ameaças que temos pela frente – Estamos ou não perante uma guerra? O que é a Al-Qaeda? O Islão é ou não uma ameaça? O problema é o terrorismo ou uma insurreição? A vitória neste conflito consiste exactamente em quê? O debate à volta destas questões tem sido extremamente intenso e as divergências em termos conceptuais e de propostas muito grandes.

Tudo isto ajuda a explicar o nosso desejo de ver os EUA encontrar o herdeiro de George Kennan, uma pessoa capaz de ver para lá do nevoeiro que rodeia muitas das nossas discussões. Até agora, o nosso desejo não passou disso mesmo. De um desejo. A publicação e enorme difusão do ensaio 'Novos Paradigmas para o Conflito no Século' no 'eJournal USA', a revista electrónica do Departamento de Estado dos EUA, mostra que algo pode estar a mudar neste capítulo. As ideias e propostas de David J. Kilcullen, um militar australiano na reserva, doutorado em antropologia e actualmente conselheiro sénior de contra-insurreição do comandante militar americano no Iraque, general David Patraeus, estão a ter grande influência em Washington. Uma leitura obrigatória, para todos os interessados num regresso de férias menos confuso.

Miguel Monjardino