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Expresso

Miguel Monjardino

Estamos em guerra

Ele foi o maior guerreiro do seu tempo. "Por isso," disse este homem, "não são estas coisas (bebida e comida) que me interessam/mas o morticínio, o sangue e os doridos gemidos de homens". A sua cólera, os seus feitos no campo de batalha e a sua enorme tragédia pessoal iluminaram a 'Ilíada', a primeira grande obra da literatura europeia, e levaram à queda de Tróia. O seu nome era Aquiles.

Esta semana, a NATO e as forças leais ao Governo de Cabul iniciaram uma importante operação militar em Helmand, a província mais violenta do Afeganistão. Os quatro mil e quinhentos soldados da NATO incluem militares da Holanda, Canadá, Inglaterra e EUA. O objectivo desta missão é combater e derrotar os grupos de talibãs, traficantes de droga e de terroristas que têm vindo a actuar em Helmand em números cada vez maiores e a impedir o início de projectos de reconstrução fundamentais para o futuro do Afeganistão.

Do ponto de vista político, esta é uma operação muito importante para a NATO. O nome da operação - 'Aquiles' - tem a virtude de chamar a atenção para uma coisa crucial mas politicamente incómoda em praticamente todos os países europeus: estamos em guerra. Uma guerra num país distante. Uma guerra praticamente invisível nas nossas televisões. Uma guerra esquecida. Uma guerra inesperada em muitas capitais europeias. Apesar de tudo isto, é de uma guerra que estamos a falar.

Portugal participa nesta guerra com uma companhia de Comandos, uma unidade com elevada prontidão operacional, capacidade para aplicar a força em qualquer situação e actuar em condições excepcionais. Estamos a falar de uma unidade bem treinada e extremamente útil do ponto de vista militar. É perfeitamente possível que, mais tarde ou mais cedo, esta unidade seja chamada a entrar em acção. A actual missão dos Comandos no Afeganistão não é uma novidade. Ao longo dos últimos onze anos, os militares portugueses defenderam o interesse nacional, em muitos países e lugares. Todavia, se tivermos presente o que tem vindo a acontecer no sul do Afeganistão, a missão dos Comandos pode vir a ser bastante mais violenta do que aquilo a que nos habituámos nos últimos tempos.

Temos, pois, pela frente dois problemas políticos. Primeiro, cinco anos depois da cimeira de Petersberg, na Alemanha, que aprovou o plano de reconstrução do Afeganistão, uma parte muito substancial do país está por reconstruir e por pacificar. Para complicar as coisas, a imagem das forças da NATO em algumas zonas do sul do país é bastante má. Aí, a batalha pelos corações e pelas mentes está muito longe de ser ganha. Segundo, o Afeganistão foi sempre visto na maior parte dos países europeus como uma missão de reconstrução e de manutenção de paz. O carácter multilateral da operação da NATO e a legitimidade da ONU ajudaram a difundir a crença de que esta seria uma operação relativamente rápida, barata e não violenta. Esquecemos-nos de que numa guerra o inimigo vota sempre. Por isso mesmo, temos uma guerra entre mãos. As guerras exigem meios e imensa vontade. Chegou a altura de explicar isto ao país de uma forma clara.

Churchill e a reconstrução do Iraque

George W. Bush nunca escondeu a sua profunda admiração por Winston Churchill. Em Fevereiro de 2002, Sir Martin Gilbert, o biógrafo oficial de Churchill, foi convidado a ir à Casa Branca falar sobre a liderança de guerra do antigo primeiro-ministro inglês. Esta conferência acabou de ser publicada entre nós sob o título 'Continuem a Moer-lhes o Juízo' (Lisboa: Gradiva, 2007). Um dos aspectos mais interessantes deste pequeno livro é a enorme atenção de Churchill aos detalhes e à informação especializada. No 'Washington Times' de 21 de Fevereiro, Harlan Ullman, um reputado comentador de assuntos estratégicos, conta uma história que nos leva a pensar que a conferência de Sir Martin Gilbert foi completamente esquecida na Casa Branca. Em causa está a crónica falta de electricidade em Bagdade quase quatro anos depois da queda de Saddam Hussein. Parte do problema tem a ver com sabotagem e ataques sistemáticos. Mas, segundo Ullman, a outra parte tem a ver com o seguinte: "Antecipando uma seca eléctrica, os EUA sensatamente encomendaram há mais de três anos cerca de duas dúzias de geradores eléctricos a uma companhia finlandesa. Os geradores chegaram a Aqaba, Jordânia, onde ficaram a aguardar a construção de instalações no Iraque. Os finlandeses, fornecedores responsáveis, fizeram manutenção preventiva aos geradores, mantendo-os operacionais num calor e clima extremo. Quando as instalações no Iraque ficaram finalmente prontas, os finlandeses apresentaram aos EUA uma conta de vinte milhões de dólares. Mas quando o contrato tinha sido negociado ninguém tinha previsto um período tão longo de armazenagem. Não constava do contrato. Os EUA recusaram pagar. E assim os finlandeses processaram e os geradores esperam em Aqaba".