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Miguel Monjardino

"Compromis à la belge"?

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Durante décadas Bruxelas foi um modelo de integração. Por um lado, a capital da Bélgica foi o centro do paciente processo político e económico que levou à actual União Europeia. Este processo teve muitos avanços e recuos mas, com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa no final de 2009, ficou clara a ambição europeia de transformar Bruxelas numa capital tão influente a nível internacional como Washington e Pequim.

Por outro, a Bélgica sempre gostou de se ver como uma espécie de modelo político para a criação de uma Europa federal em que as regiões substituiriam os obsoletos estados-nação que durante séculos geriram os destinos do Velho Continente.

O problema é que hoje em dia Bruxelas parece ser sinónimo de desintegração a nível europeu. Há um mês, os decisores europeus concordaram em criar um fundo de estabilização financeira para apoiar os países da zona euro com dificuldades em financiar-se nos mercados internacionais. O anúncio da criação deste fundo comprou tempo mas é altamente provável que nos próximos doze meses a união monetária seja submetida a fortíssimas pressões. Não tenho a certeza de que a zona euro consiga resistir a estas pressões sem mudanças drásticas no seu funcionamento e composição.

Do ponto de vista doméstico, as coisas não estão melhores em Bruxelas. O resultado das eleições do domingo passado mostram que as divisões e as dúvidas em relação ao futuro da Bélgica são agora bem mais profundas do que tem sido habitual na história do país. A Nova Aliança Flamenga ganhou vinte oito por cento dos votos no norte do país e o maior número de votos a nível nacional depois de ter feito uma campanha eleitoral à volta da devolução das finanças públicas e segurança social à Flandres e Valónia. No sul da Bélgica, os socialistas foram os mais votados com uma agenda política que privilegia a centralização do estado e mais gastos públicos.

A história mostra que governar a Bélgica nos últimos cento e oitenta anos nunca foi fácil. Nos últimos tempos as coisas parecem todavia ter-se tornado ainda mais complicadas. Em 2007 foram necessários duzentos e oitenta e dois dias para constituir um governo e, mesmo assim, as crises políticas sucederam-se regularmente. Agora ninguém sabe quanto tempo será necessário para negociar um novo governo. Em Bruxelas e nas capitais europeias ninguém se espantará se for preciso tanto tempo como no Iraque.

Será que a Bélgica está a caminho da desintegração? Os mais optimistas dizem que não e esperam que os resultados de domingo conduzam mais uma vez a um dos célebres compromis à la belge ou seja, um compromisso político que dê a cada um pequenas vitórias políticas. Olhando para o debate e para os resultados eleitorais, tenho dúvidas de que desta vez o famoso compromisso belga seja suficiente. A Bélgica mudou mesmo no domingo.

miguelmonjardino@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010