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Miguel Monjardino

Cameron e a austeridade

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Há uma frase de Pierre Mendès France que os primeiros-ministros usam sempre com algum orgulho - "governar é escolher." O problema é que escolher implica sempre desiludir alguém. Imagino que seja por isso que a maioria dos decisores políticos deteste ser colocada numa situação em que é mesmo forçada pelas circunstâncias a fazer opções. A tentação natural de qualquer governo ou burocracia que se preze é evitar escolher e gastar mais dinheiro dos contribuintes.

Como aconteceu em toda a Europa, foi isto mesmo que os governos de Tony Blair e Gordon Brown fizeram com uma regularidade espantosa na última década. David Cameron e o seu Governo de coligação não terão este luxo político. A idade da austeridade forçará Downing Street e Whitehall a fazer escolhas. A semana que agora acaba tornou claro que estas escolhas terão importantes consequências políticas e estratégicas para o Reino Unido.

Começando pelas primeiras, Londres tem o défice orçamental mais elevado dos países G-20 e uma dívida pública galopante. Nas actuais circunstâncias, esta situação é insustentável em termos domésticos e nos mercados internacionais. Algo de drástico precisa de ser feito e depressa.

A opção de Cameron foi um programa de cortes orçamentais bastante severo. "As decisões que vamos tomar afectarão todas as pessoas no nosso país," avisou na segunda-feira o novo primeiro-ministro inglês num discurso sombrio em Milton Keynes, "e os efeitos dessas decisões ficarão connosco durante anos, talvez décadas." George Osborne, o ministro das Finanças, está a exigir aos seus colegas de Governo uma redução de despesas na casa dos 15-20% nos próximos cinco anos. Se, como tudo indica, as previsões de crescimento económico para este ano forem revistas em baixa na segunda-feira, os cortes terão de ser ainda maiores.

Cameron, Osborne e os seus colegas estão entre a espada financeira e a parede política. De um lado está a fria realidade dos números e a necessidade de fazer escolhas para o período que vai até 2014-2015. Esta realidade exige o orçamento rectificativo que será apresentado no próximo dia 22. Do outro está uma coligação vista como improvável aqui há umas semanas, um governo liderado por políticos audaciosos mas inexperientes e uma sociedade em que a maioria da população nunca foi devidamente preparada para o fim da idade da abundância orçamental. Esta abundância anestesiou o Reino Unido. A austeridade é inevitável mas é abrupta e tem o risco político de chocar o eleitorado.

O segundo ponto a ter em conta são as consequências estratégicas da idade da austeridade para Londres. Suspeito que elas serão importantes. A consequência mais imediata é que a austeridade vai exigir que os decisores em Downing Street e Whitehall se tornem uma espécie de bombeiros políticos domésticos. O mais natural é que as questões estratégicas sejam relegadas para segundo plano. Mesmo assim, Londres não é Lisboa, uma cidade onde a estratégia se transformou numa espécie de curiosidade arqueológica. O Reino Unido tem o quarto orçamento de defesa do mundo e gosta de lutar acima do seu peso na política internacional. O problema é saber como.

Durante a campanha eleitoral, os conservadores prometeram levar a cabo uma Strategic Defence and Security Review (SDSR) quando chegassem ao poder. A SDSR terá lugar nos próximos meses mas a conferência sobre guerra terrestre que teve lugar esta semana no Royal United Services Institute mostrou claramente a tensão que existe entre aqueles que defendem que Londres deve privilegiar a aposta nas capacidades expedicionárias continentais em teatros de operações como o Afeganistão e os que defendem a aposta nas capacidades de projecção de poder mais associadas ao poder naval.

A política e a estratégia são agora actividades mais difíceis. Na idade da austeridade, os governos e as sociedades precisam mesmo de escolher.

13 anos depois da vitória trabalhista, os conservadores estão de regresso ao Governo em coligação com os liberais-democratas. Em vez da abundância orçamental têm pela frente a austeridade. As consequências políticas e estratégicas serão importantes.

+ As mulheres conseguiram excelentes resultados nas eleições primárias realizadas esta semana em 11 estados dos EUA - O Egipto está a perder poder e influência no Médio Oriente

Berlim e Paris

A crise financeira na zona euro está a aumentar a tensão e as suspeitas entre Berlim e Paris. Os decisores franceses dizem que os alemães têm vindo a tornar as coisas ainda mais difíceis. Em Berlim, a retórica e as propostas francesas são vistas como uma maneira de alterar as regras de funcionamento da zona euro. Angela Merkel quer fortalecer e credibilizar estas regras. Sarkozy está muito mais interessado em aumentar o poder e a influência dos decisores políticos europeus na gestão da zona euro.

miguelmonjardino@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010