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Miguel Monjardino

As fontes da conduta russa

Olhar para o anúncio que Mikhail Gorbatchov, antigo secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, fez recentemente para uma marca de produtos de luxo francesa é capaz de ser a melhor maneira de analisar a evolução das relações da Rússia com os países europeus nos últimos anos. O anúncio mostra Gorbatchov a passar ao lado do Muro de Berlim e relembra a surpresa e o optimismo que varreram a Europa quando o muro caiu no final de 1989. O antigo líder soviético desempenhou um papel importante na queda desse marco da divisão e submissão de parte da Europa a Moscovo. E desempenhou também um papel importante ao olhar para o futuro e falar de uma "casa comum europeia".

Muitos anos depois, a Rússia continua a surpreender os líderes e as sociedades europeias. Só que em vez de optimismo, a Europa está a ser varrida por uma onda de pessimismo em relação à Rússia. A verdade é que 2007 assinala uma transição política extremamente significativa para os líderes europeus. Durante os últimos anos, muitos destes líderes pensaram que tinham um problema americano. 2007 mostra, todavia que, após muitas hesitações, os líderes europeus compreenderam que a Rússia de Vladimir Putin é um problema bem mais complicado do que a questão americana. A reaproximação europeia com Washington coincide com o afastamento, a perplexidade e o desapontamento em relação a Moscovo. A retórica e as acções do Kremlin têm levado muita gente na Europa a falar de um regresso à Guerra Fria. Este regresso é extremamente improvável. Para percebermos porque é crucial termos em conta as fontes da conduta russa.

Do ponto de vista interno, o grande objectivo do Presidente russo Vladimir Putin e dos grupos que o apoiam nunca foi construir uma democracia mas sim concentrar todo o poder de decisão no Kremlin. Esta concentração de poder pode horrorizar os líderes, as opiniões públicas europeias e a pequena elite liberal de Moscovo mas é perfeitamente consistente com a história política russa e apoiada pela enorme maioria da sociedade. Além disso, Putin sempre viu esta concentração de poder como algo essencial para levar a cabo uma agenda política centrada no crescimento económico, exportação de gás e petróleo, melhoria das condições de vida de uma população duramente punida pelos colapsos da União Soviética (1991) e do rublo (1998) e assegurar a continuidade do seu regime.

Do ponto de vista externo, o Iraque tem sido uma espécie de bênção geopolítica para Vladimir Putin. A controvérsia à volta do Iraque e a dureza do combate pelo futuro do país, minou a imagem e a credibilidade dos EUA e desviou a atenção da maioria dos líderes, elites e sociedades europeias em relação a Moscovo. O Kremlin aproveitou o impasse americano no Iraque para tentar recuperar a sua influência nas zonas da fronteira do seu antigo império. A retórica política, o uso da energia como instrumento político, os testes de armas com enorme potencial de destruição e a intimidação foram amplamente usadas por Vladimir Putin interessado em anunciar o regresso da Rússia à condição de potência indispensável para europeus e americanos.

E agora o que é que os países europeus podem e devem fazer em relação a Moscovo? Duas coisas contraditórias. A primeira está relacionada com a percepção que Moscovo tem da sua força. Aqui os países europeus têm de reconhecer que o problema russo existe e que um Kremlin nacionalista e revisionista poderá não resistir à tentação de testar a vontade política dos países europeus e de Washington. A segunda está relacionada com a fraqueza russa. O Kremlin pode falar alto mas, ponto de vista da estabilidade interna, economia, energia e demografia, está longe de ser tão forte como nos quer fazer crer.

Os curdos, Washington e o Irão

Foi uma saída silenciosa. Foi também uma saída extremamente significativa do ponto de vista político. O general Joseph W. Ralston (USAF) é hoje em dia um nome quase esquecido na Europa. Ralston foi comandante supremo da NATO até 2003. Antes disso tinha sido vice-chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas americanas. Em Agosto de 2006 foi nomeado enviado especial do Departamento de Estado dos EUA junto do Governo turco. Missão? Ajudar a acabar com as actividades do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no Norte do Iraque e no território turco. Ralston pediu a demissão há algumas semanas. Na base da sua discreta saída está um intenso debate interno na Administração W. Bush sobre o papel dos curdos na estratégia regional americana.

Washington precisa da Turquia por razões políticas e logísticas. Mas também precisa de ver o Curdistão iraquiano ser um sucesso económico e político. A maior parte dos artigos publicados na Europa e nos EUA sobre o Iraque tem ignorado completamente o que se passa nesta zona do Iraque. Tendo em conta que a situação que se tem vivido no Curdistão iraquiano nos últimos anos tem sido relativamente calma, não deixa de ser irónico que a região esteja na boca do mundo por causa do PKK, um grupo de terroristas e guerrilheiros turcos.

O que tem sido menos notado no impasse entre a Turquia e Washington sobre os ataques do PKK em território turco é o papel do Partido da Liberdade e da Vida do Curdistão (PJAL) para alguns decisores americanos. O PJAL, um grupo com bases na montanhas e vales da fronteira entre o Iraque e Irão, tem levado a cabo uma campanha de guerrilha contra as forças militares de Teerão. Os problemas que o Irão tem causado a Washington no Iraque levaram algumas pessoas em Washington a concluir que a campanha de guerrilha do PJAL contra as forças iranianas deve continuar. O problema é que não é nada fácil saber onde é que o PKK acaba e onde começa o PJAL. Alguns decisores em Washington querem manter todas as suas opções curdas. Ralston terá provavelmente achado que isto não era possível e bateu com a porta.

Miguel Monjardino