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Expresso

Miguel Monjardino

A Europa precisa de mais capitalismo

As vésperas das cimeiras europeias são sempre ocasiões dramáticas. Antes de se meterem nos seus aviões, os governantes europeus anunciam alto e em bom som aos eleitorados as suas famosas linhas vermelhas. Uns prometem resistir. Outros prometem vitória. Praticamente ninguém promete ceder para conseguir um compromisso que garanta pequenas vitórias para todos os envolvidos. Tudo isto ajuda a explicar o pessimismo geral que rodeia o início destas cimeiras. O caminho para a cimeira informal dos líderes europeus que se realizou esta semana em Lisboa foi diferente. Um olhar pelos jornais europeus de referência mostra que o dramatismo foi muito menor do que é costume. Em muitos casos, a retórica política para consumo interno deu lugar ao silêncio. E, em vez de um pessimismo generalizado, pairou no ar uma coisa quase impensável - algum optimismo e confiança. O que é que isto quer dizer?

Acima de tudo que, depois de terem entrado em órbita em 2005 com os 'não' da França e da Holanda ao Tratado Constitucional, os líderes europeus concluíram que chegou a altura de a União Europeia aterrar. Se ouvirmos com atenção o que foi dito nas últimas semanas, vemos que não estamos a falar de uma aterragem política hesitante. O que as lideranças europeias têm em mente é uma aterragem extremamente decidida, capaz de atingir dois importantes objectivos. O primeiro é óbvio - acabar com a crise política iniciada em 2005. O segundo é menos óbvio e, por isso mesmo, bastante mais importante. Estou a falar de olhar em frente com confiança e optimismo para o futuro dos países europeus e da União Europeia.

O que é que leva os líderes a fazer isto? Uma mistura de oportunidades e de desafios. Vivemos tempos paradoxais. O tom dominante dos debates públicos é miserabilista. Céptico. Defensivo em relação ao presente e medroso em relação ao futuro. Uma percentagem elevadíssima dos eleitorados parece acreditar que a Europa vive tempos extremamente difíceis. O que parece preocupar muita gente é saber onde está o travão político que a faça regressar a um passado mais seguro mas também mais pobre e de certeza bem mais provinciano.

Todavia, se olharmos para os números com atenção vemos que os países da União Europeia são actualmente a maior economia do mundo. A Europa é responsável por um terço da economia mundial e, tomadas no seu conjunto, as suas economias são claramente maiores do que a do Japão, China ou Índia. Além disso, o Velho Continente continua a atrair imenso investimento estrangeiro. Os lucros gerados por estes investimentos são muitíssimo superiores aos realizados, por exemplo, na Ásia. De acordo com o Fórum Económico Mundial, um número apreciável de países europeus são extremamente competitivos a nível mundial.

Estas boas notícias tendem a ser ignoradas entre nós. Isto é trágico. Os europeus não compreendem porque é que são ricos. Somos ricos acima de tudo por causa de coisas algo invisíveis mas absolutamente essenciais - o Estado de Direito, um sistema judicial eficiente, direitos de propriedade, governos competentes, escolas públicas e privadas exigentes, universidades competitivas em termos internacionais e incentivos à inovação. Se quisermos continuar a ser ricos e a ter um papel importante na política internacional, teremos de continuar a fazer importantes reformas em todas estas áreas nos próximos anos. Se quisermos diminuir a pobreza que existe entre nós, precisamos de mais protecção para os mais fracos e desfavorecidos e muito mais mercado, regras claras e competição para as empresas e os mais ricos e poderosos. O futuro da Europa passa por mais e não menos capitalismo. Os líderes europeus sabem isto muito bem. Mas será que os seus eleitorados sabem? E se sabem, será que estão dispostos a dar um passo em frente?

A Geórgia e o Iraque

Países com estômago para mandar e manter os seus militares no Iraque é coisa que não abunda hoje em dia. Nem mesmo em Londres, tradicionalmente a capital mais fiável para Washington quando as coisas aquecem. Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, anunciou a semana passada que o número de soldados ingleses no Iraque será substancialmente reduzido nos próximos seis meses. A pequena Geórgia é a excepção à actual debandada das forças militares não-americanas do Iraque. Esta semana dois mil soldados desta República do Cáucaso começaram a patrulhar uma zona junto à fronteira com o Irão. Porquê?

Primeiro, por causa da possível reacção de Moscovo ao reconhecimento da independência do Kosovo pela União Europeia e Estados Unidos. A ocorrer este reconhecimento, uma das possíveis reacções do Kremlin poderá ser o reconhecimento da independência da Abkhazia, uma região da Geórgia. Numa situação deste tipo, Tbilissi precisará do apoio de Washington e das principais capitais europeias. Segundo, a missão no Iraque é vista pela Administração de Mikhail Saakashvili, Presidente da Geórgia, como a melhor maneira de profissionalizar e aumentar rapidamente a competência das suas forças militares e as ligações aos EUA e à NATO.

A nova missão do USS 'Ohio'

Durante a fase final da Guerra Fria, a missão do submarino norte-americano 'Ohio' foi a dissuasão nuclear. Esta semana, o 'Ohio' partiu de Bremerton, uma pequena cidade do estado de Washington, na costa do Pacífico, para uma missão muito diferente da desempenhada no passado. Em vez de mísseis balísticos nucleares Trident I (C4), o submarino americano pode levar a bordo até 154 mísseis de cruzeiro convencionais Tomahawk e 66 militares de forças de operações especiais. Nos últimos seis anos ouvimos falar muito da infantaria e do poder aéreo dos EUA, pouco sobre a Marinha e nada de submarinos. O 'Ohio' é uma tentativa da Marinha norte-americana no sentido de mudar esta situação.

Miguel Monjardino