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Miguel Monjardino

A Alemanha e o intervalo europeu

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

A União Europeia e a Alemanha foram para intervalo no fim-de-semana passado. Não tenha ilusões - este intervalo vai ser um momento muito importante na Europa. Em causa vai estar tudo aquilo em que temos acreditado do ponto de vista político e económico na última década.

A ajuda de emergência à Grécia no valor de €110 milhares de milhões de euros e a disponibilização pela União Europeia e o Fundo Monetário Internacional de €750 milhares de milhões de euros para apoiar os membros da zona euro em dificuldades financeiras assinalaram o início do intervalo.

O que os líderes europeus quiseram mostrar de uma forma clara no fim-de-semana passado foi a sua determinação em defender a zona euro nos mercados financeiros internacionais. Esta determinação, todavia, esconde uma coisa essencial e quase inconcebível para as elites e sociedades europeias - a zona euro está em dificuldades.

Em vez da disciplina, da prudência e de reformas institucionais e económicas profundas, as regras da zona euro levaram alguns governos europeus a viver muito acima das suas possibilidades nos últimos anos. Basta olhar para os défices orçamentais e para as dívidas públicas europeias para compreender isto. O sector privado - empresas, famílias e indivíduos - foi pelo mesmo caminho e alinhou numa orgia de empréstimos.

Durante algum tempo, os investidores internacionais não prestaram a devida atenção ao que estava a acontecer e deram o benefício da dúvida à zona euro. Este tempo acabou. E o que os investidores internacionais estão a ver em termos de dívidas externas e défices orçamentais deixa-os extremamente apreensivos.

As deliberações do fim-de-semana passado em Bruxelas são um espelho da gravidade do que está a acontecer à zona euro. Estas deliberações foram um passo importante, mas não resolvem. Digamos que são uma contagem de protecção à zona euro. Mandaram-nos para intervalo durante algum tempo. Este intervalo deve ser aproveitado para começar a repensar as regras do funcionamento da zona euro e das suas economias.

Berlim vai ter uma palavra decisiva em todo este processo. O intenso debate alemão sobre a evolução da união monetária mostra um paradoxo. Por um lado, os políticos e os empresários alemães sabem muito bem que a substituição do marco pelo euro em 1999 melhorou imenso a competitividade das suas exportações. Esta maior competitividade, aliada a uma grande disciplina ao nível salarial, alimentou o crescimento económico da Alemanha na última década e consolidou a influência geopolítica de Berlim na UE. Por outro lado, a sociedade alemã é cada vez mais céptica em relação às vantagens políticas e económicas da zona euro. A crise financeira na Grécia e as dúvidas em relação à saúde à disciplina das economias e sociedades do sul da Europa tornaram este cepticismo visível nas últimas semanas. O "Bild" e o "Die Zeit" são agora tão cépticos e hostis em relação à zona euro como o "The Sun" e o "Sunday Telegraph".

O paradoxo mostra que Berlim vai aproveitar o intervalo europeu para considerar duas opções. A primeira, como Martin Wolf tem defendido no "Financial Times", passa por uma integração fiscal muito maior ao nível da união monetária europeia. A segunda é uma zona euro construída pela Alemanha à volta das economias mais saudáveis e disciplinadas do norte da Europa. Por razões políticas, a França poderá participar nesta união monetária bastante mais homogénea do ponto de vista económico, social e cultural.

O intervalo europeu esconde um ajustamento muito penoso para um país com a cultura política, a economia e os baixíssimos níveis de educação e qualificação profissional de Portugal. A idade da abundância acabou. A idade da austeridade já começou. Resta saber se será acompanhada pelas indispensáveis reformas políticas e económicas.

Número 11 anos depois da sua criação, o futuro da zona euro é incerto. As deliberações em Bruxelas no fim-de-semana passado mandaram os governos e as sociedades europeias para intervalo. A Alemanha terá uma palavra decisiva.

Soluções + A universidade de Oxford. Exceptuando Gordon Brown, desde 1935 todos os primeiros-ministros do Reino Unido com educação universitária estudaram em Oxford - O sector público gera 60% do rendimento da Escócia.

miguelmonjardino@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010