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Expresso

Mário Cláudio

Veraneios

O recente encerramento das instalações do Limbo, porventura com vista a 'mudança de ramo', acabado de decretar pelo pontífice reinante, não terá implicado a rasura daqueles lugares que constituem a terrena expressão de tais estâncias, marcadas pela mais branca das letargias. Refiro-me às termas que recomeçaram a florescer, e em especial na actualizada morfologia dos spas de luxo, o que afinal significa a pendularidade de uma moda terapêutica que, há bem pouco tempo, as votava a um destino de progressivo esboroamento.

É de uma paisagem dessas que regresso, conservando no fundo dos ouvidos o sussurro dolente do pessoal do respectivo balneário, o qual, e à semelhança do que sucede com o "staff" da enfermagem hospitalar, investe num chorrilho de diminutivos, a 'toalhinha', a 'cabinita', ou a 'irrigaçãozinha', como táctica do transbordo de um lastro de convenientes ternuras. Fosse o tratamento em França, na Alemanha, em Itália, ou na Hungria, permito-me duvidar de que idêntico veio menineiro se manifestasse, redobradamente dulcificando uma estadia que se alimenta sobretudo de remansos.

Mas o 'estar a águas', expressão que apenas sobreviverá entre os mais centenários dos clientes termais, não deixou de me esclarecer, e em ampla medida, sobre um certo estatismo social que entre nós convive com as modernas formas de comportamento cívico. Há casais de uma elite de museu, cada vez mais atirados para as periferias, que insistem, e sem se repetirem, em trocar de indumentária a cada refeição, e representantes dos vários estratos que durante décadas acenderam o esplendor de Portugal. Lá estão os servos da Igreja, não tão emblematicamente escanzelados como o cardeal que frequenta Montecattini no Fellini '8 1/2'½, mas opíparos e conviventes, o chefe de secretaria aposentado, e a professoreca que disserta a plenos pulmões sobre as virtudes do banho de Vichy, ou da massagem de Aix.

Os males do corpo, artroses e hipertensões, colesterol elevado e rinites alérgicas, originários de um sedentarismo que aí vai buscar o contra-veneno da Fonte da Juventude, conformam tema dominante das conversas do "lóbi" do hotel, e as dietas devoram-se com a meticulosidade que não dispensa a bulimia dominical. O bosque, o parque e a piscina, enquadramento que empresta ao sítio a dignidade de uma reposição de Delfos, ou de um retorno aos druidas, colaboram na pasmaceira em que se abrem as narrativas de mistérios, de Paulo Coelho, ou de quotidianidades, de Margarida Rebelo Pinto, tudo entre bocejos que se repetem, e moscas que não desistem da picada.

Ramalho Ortigão, uma dessas imponentes estátuas que ninguém verdadeiramente lê, ao debruçar-se sobre banhos de caldas e águas minerais, contempla-nos com a seguinte conclusão, susceptível ainda de aproveitar a muito boa gente: "O grande perigo que trazem consigo os cuidados exigidos pela conservação da saúde é darem-nos a ideia fixa, a preocupação da morte, produzir-nos a hipocondria, lançar-nos na terrível farsa, científica como um diagnóstico do "malade imaginaire"".

E Hipólito-Reis, professor da Faculdade de Medicina do Porto, no seu 'Curas Termais & Etc.' fala da cura elementar como "um processo de conhecimento e reconhecimento em que, para além da palavra, é oferecido um conjunto de possibilidades de encontro que faculta a fixação da patologia, a dinâmica favorável dos elementos e a esperança da saúde".

Não bastará isto, pergunto eu agora, a que de algum modo se reabram os aposentos do Limbo?