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Expresso

Manuela Ferreira Leite

Seriedade na oposição

Na semana em que o Governo completou o segundo ano do seu mandato, seria de esperar que os analistas se ocupassem de um balanço dos progressos e insucessos conseguidos ao longo deste tempo. Em vez disso, foi o estado da oposição que esteve em foco, ao ponto de se ter dado enorme protagonismo a quem se arrogou o papel de salvador. Esta atitude dos analistas pode querer dizer uma de duas coisas.

Em primeiro lugar, que nada justifica o nível de popularidade deste Governo - o que implicitamente significa uma avaliação negativa da sua actuação - a não ser uma oposição fraca.

Ou, segunda hipótese, os analistas consideram que oposição boa e eficaz é a que se faz através de "soundbytes", muito espectáculo e permanente colagem ao descontentamento, ou seja, a que demonstra frenesim. Para esses, boa oposição é aquela que capta o incómodo das populações, mesmo que para isso tenha de renegar os princípios e valores em que acredita.

Para muitos, boa oposição é a que defende ideias e propostas que se pressente serem as que os cidadãos querem ouvir, mesmo que reconheçam que são inexequíveis e de que se podem vir a arrepender quando estiverem no Governo.

Foi o que aconteceu em 2003, quando o eng. Sócrates, na oposição, dizia ao então primeiro-ministro: "Isto não está a correr bem, sr. primeiro-ministro! Isto não está mesmo a correr nada bem!!"

"O Eurostat divulgou ontem a taxa de desemprego em Portugal: 7% (...) o desemprego sobe mais entre as pessoas com curso superior e sobe mais entre os jovens!! (...) e o pior é que este desemprego (...) é justamente o que não podia nem devia acontecer. (...) se há um erro capital nesta política económica (...) foi o da redução (...) do investimento público".

Não é esta a oposição que precisamos. Deve-se exigir-lhe a mesma seriedade e a mesma coerência que se exige ao Governo.

De facto, se este estilo na altura mereceu aplausos, hoje só pode envergonhar quem a protagonizou.

É isto que descredibiliza a política. É por isto que a desconfiança ganha terreno onde devia crescer a esperança.

É o mal do Governo hoje, porque foi oposição errada ontem.