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Manuel Ennes Ferreira

O débutant Sarkosy e os outros

Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt)

Três anos depois, a passerelle foi estendida a estadistas recomendáveis e não-recomendáveis em Nice, na França, por ocasião da 25ª Cimeira Franco-Africana. Bom sítio, a Côte d'Azur é um paraíso e possivelmente muitos dos que ali estiveram pernoitaram nalguma das suas casas ou de seus familiares. Mas o enquadramento geral destas Cimeiras já não é o que era. Jacob Zuma, Presidente da África do Sul, disse que não era possível dar um estatuto de legitimidade ao general Salou Djibo, do Niger, que chegou ao poder através de um golpe de Estado em Fevereiro deste ano, ou ao general Sékouba Konate, da Guiné-Conacri, que após o golpe de 2008 se tornou Presidente no Outono de 2009, quando as instituições democráticas em África os condenaram e isolaram. Problema dos africanos, dirão os franceses. Mas vá lá, não foram convidados os Presidentes do Madagáscar, do Sudão e do Zimbabwe. Espera-se que Zuma tenha sido a voz de muitos outros chefes de Estado e sobretudo de milhões de cidadãos africanos. Mas dizia que estas cimeiras já não são o que eram, embora o ritual se mantenha. Velhos são os tempos em que, logo após o início destes encontros em 1973, em Paris, eles sucederam-se anualmente até 1988. Era o tempo da Guerra Fria, havia que ter os países africanos bem controlados. Politicamente assim e economicamente com um franco CFA ligado à moeda francesa para que o statu quo se mantivesse. Só que o fim daquele mundo bipolar no final da década de 80 criou novas condições e a gendarmerie pesada tornou-se obsoleta e desfasada, novos actores apareceram e novas prioridades estratégicas surgiram. Deu-se folga... e as cimeiras passaram a ser de dois em dois anos. Não sei se será o novo mote, esta teve um intervalo de três anos. Mas é obra, reconheça-se. Convidados 52 países africanos, apareceram 38 chefes de Estado. Da lusofonia destaque para os Presidentes moçambicano e da Guiné-Bissau. Pela primeira vez a cimeira contou com 'forças vivas' francesas e africanas - 80 empresários franceses e 150 provenientes de África. A disputa por África vai azedar nos anos vindouros, isso é certo. A França não quer perder o seu estatuto em África e faz pela vida, está no seu direito. Ao longo do tempo este continente tem perdido importância relativa em termos económicos para a França: representa 7% das exportações francesas e 5% das suas importações. Do ponto de vista contrário, a França é o 2º exportador para aquele continente, atrás da China, sendo o 4º importador, depois dos EUA, da China e da Itália. Mas a relação económica bilateral com as suas ex-colónias mostra uma participação no comércio e nos investimentos bem mais substancial. Para que ninguém se esqueça dela, a "Marselhesa" é tocada diariamente no Senegal, no Gabão e no Djibouti pela banda militar gaulesa. Mas a cultura francesa é um encanto, essa é que é essa, e o Elysée tem glamour. Bom, à falta de melhor, resta-nos esperar por Julho quando a Cimeira dos chefes de Estado da lusofonia se reunir em Luanda.

mfereira@iseg.utl.pt

Professor do ISEG

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010