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Expresso

Manuel Ennes Ferreira

Isto é o Congo ou quê?

Para corresponder ao espírito que se instala em todos nós com o início do mês de férias por excelência, esta crónica levezinha, espera-se, deverá ir ao encontro do sentimento de frustração que não poucas vezes nos percorre no dia-a-dia. Nas coisas mais simples deparamos com obstáculos, uns compreensíveis outros absurdos. Por culpa de regras e procedimentos burocráticos e administrativos, por falta de preparação adequada do interlocutor, por falta de bom senso, por falta de educação... Há muitos anos, era corrente ouvir-se a expressão 'mas isto é o Congo ou quê?', no que explicitamente queria dizer-se 'então não há ordem, não há regras, isto é o salve-se quem puder?', sentimento este baseado num implicitamente juízo negativo sobre África e o caos e impunidade reinante em muitos países deste continente. Felizmente o termo tem caído em desuso. Os tempos que correm fizeram subir o grau de exigência de instituições, empresas e pessoas. E havendo ainda, e não poucas, situações verdadeiramente caóticas e absurdas, conduzindo o mais calmo até à beira de um ataque de nervos, o certo é que já não são o que eram. Porém, olhando para o outro lado da equação, o que se passa na República Democrática do Congo, o ex-Zaire de Mobutu, não ajuda a cair no esquecimento aquele desabafo. Um país onde cabe quase a União Europeia e que continua com um governo precário, independentemente de se terem realizado eleições. Mas a contestação ao Governo central continua e a instabilidade e insegurança são elevadas. Voltando a Portugal, é nestas alturas de muito calor, que ficamos ainda mais indispostos, irritadiços, sem vontade para aturar a mínima contrariedade. E alguém tem de pagar por isso. É o Congo, pois claro. Ainda por cima porque o candidato presidencial derrotado há poucos meses se viu obrigado a fugir para uma missão diplomática em Kinshasa e depois 'exilado voluntariamente' para a Europa. Mais precisamente em Portugal. Mais especificamente no Algarve. Exactamente o local onde os portugueses estão a descansar dos onze meses em que disseram 'isto é o Congo ou quê?'. Ironias da vida...

Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI

Manuel Ennes Ferreira