Siga-nos

Perfil

Expresso

Manuel Ennes Ferreira

Eu quero o meu 'kumbu', já!

Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt)

Sabe o leitor o que é o 'kumbu'? É dinheiro, em Angola, adaptação de 'ukumbu' do kimbundu, que significa, pasme-se... 'vaidade'! Talvez por isso seja até o nome de um cartão Visa do Banco Sol. E sabe o que é a 'verdinha'? É a verdadeira moeda forte, é aquela que conta naquele mercado, é onde está o Franklin a pensar com cara de poucos amigos desde 1914, conhecidas nos Estados Unidos pelos 'benjamins'... Ora bem, o que mais falta neste mundo e nesta altura é 'kumbu'. Em Angola e em Portugal. Curiosamente, e no que respeita a acerto de contas entre os dois países, isto é problema que já tem barbas. A questão das transferências e dos atrasados vem do tempo colonial e já naquela altura causava bastantes transtornos. Era um tema recorrente. Mas com a independência de Angola, e noutro contexto, eis que renasceu das cinzas alguns anos mais tarde.

A década de 90 preparou o caldo e o calote de tal ordem que depois de inúmeras tentativas de resolver o problema da dívida em atraso de Angola para com Portugal, lá se chegou a uma solução. E que solução! Pelo caminho foram ficando várias empresas que não aguentaram a espera. Das sobreviventes, o Governo português encarregou-se de arranjar um negócio, assim do tipo 'deal'... e que era simples e baseado num protocolo de reescalonamento da dívida de Novembro de 2002. Dos cerca de 2 mil milhões de dólares de dívida para com o Estado português, os bancos e as empresas, em 2004 a dívida oficial bilateral foi reescalonada tendo Angola pago 27% e o restante há-de sê-lo em 25 anos a partir de 2009... Menos sorte tiveram os bancos que perdoaram 65% de 560 milhões de dólares tal como ocorreu com as empresas e instituições privadas (840 milhões). Quem não quisesse aceitar o acordo deveria negociar directamente com o Governo angolano. Claro como a água! Mas por esta altura assistia-se já ao boom daquele mercado o qual, como um balão, esvaziou com a crise internacional. Resultado: acumulação de atrasados no pagamento da dívida. O ramo da construção civil sofre conjuntamente com centenas de outras empresas. Resultado? De repente, há dias atrás, desembarca em Luanda e sem grande alarido o ministro Teixeira dos Santos. Declarações? Pois claro: "Ficou acertado que a linha de crédito de 500 milhões de euros, que já fora acordada em 2009, possa ser o mais rapidamente utilizada para efectuar pagamentos a empresas envolvidas em projectos angolanos e relativamente às quais possa haver atrasos nos pagamentos". O 'possa' é de estalo! Mas se as empresas portuguesas estavam aflitas e ávidas pelo 'kumbu' de Angola, que dizer dos investimentos angolanos em empresas portuguesas? Só dois exemplos: a Santoro, de Isabel dos Santos, adquiriu BPI a 1,88 euros. Agora estão a 1,53 (-20%). A Kento, de Isabel dos Santos, comprou ZON a 5,3 euros. Está actualmente a 3,23 (-40%). E se a crise grega nos põe gregos, então imagine-se o que vai ser para os lados luandenses. É só gritos: "Eu quero o meu 'kumbu', eu quero as minhas ricas verdinhas! Já!" É a reciprocidade, versão financeira...

mfereira@iseg.utl.pt

Professor do ISEG  

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010