Siga-nos

Perfil

Expresso

Manuel Ennes Ferreira

Cabo Verde é intangível

Decorreram uma vez mais eleições autárquicas em Cabo Verde. Partindo de uma desvantagem em número de Câmaras obtidas nas eleições de Março de 2004, o PAICV, partido que governa o país com maioria absoluta desde Janeiro de 2006, passou de seis num total de dezassete (35%) para dez em vinte e duas (45%).

No dia em que escrevo esta crónica ainda não era claro se o principal partido da oposição, o MpD, havia ganho a Câmara da capital do país. Assinalável é o facto de até agora dois terços das autarquias estarem nas mãos da oposição e o Presidente do país, apoiado pelo PAICV, ter sido eleito à tangente em Fevereiro de 2006 (obteve 50,84%) sobre Carlos Veiga (49,16%) do MpD, sem que isso significasse ingovernabilidade de Cabo Verde. Não é só o PAICV que está de parabéns. É a oposição, o MpD, outros pequenos partidos e os candidatos independentes. Já lá vão quase dezoito anos e as eleições legislativas, presidenciais e autárquicas sucedem-se num ciclo normal. A economia do país tem enormes problemas que é escusado aqui referir. Mas tem vindo a crescer e mantém um reconhecimento internacional invejável. Vários factores certamente contribuíram para isso. A abertura ao exterior propiciada pela histórica emigração certamente tem ajudado a abrir as mentes e a aceitar a diferença. Este parece-me um traço distintivo e que explica em larga medida os êxitos deste pequeno país insular. Em contraste outros casos lamentam-se: ainda esta semana caiu, uma vez mais, o governo de São Tomé e Príncipe. É só pena que a estabilidade política, um bem intangível, não possa estar cotada na bolsa de valores de Cabo Verde. Era certamente um investimento seguro e de valorização permanente. A sua preservação é um dos factores de competitividade do país na região da África Ocidental. Que assim continue e frutifique noutros países africanos.

PS: foi apresentado esta semana o novo programa televisivo do santomense João Carlos Silva. Teremos semanalmente 'Sal na Língua' já no final deste mês e onde a culinária e a cultura de cada um dos países lusófonos será servida.

Manuel Ennes Ferreira

Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI