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Expresso

Manuel Ennes Ferreira

A Rússia em África

Os olhares têm estado concentrados no novo 'invasor' de África o que, para deleite dos seus detractores, confirma finalmente o velho epíteto: o perigo amarelo em todo o seu esplendor! Incomodados, acrescentam um primo asiático: a Índia. Dependendo da perspectiva, esta nova nuance no continente africano pode ser considerada uma ameaça ou uma benesse. Mas um novo actor começa paulatinamente a despertar para África: a Rússia. Arrumada a casa, reassumido o papel de potência mundial que passa por se afirmar em zonas de potencial estratégico, económico ou não, a Rússia regressa a África. É preciso não esquecer que em muitos países africanos há milhares de quadros formados por ali. Putin deu o tiro de partida. Depois de Podgorny em 1976, 30 anos mais tarde, em Setembro de 2006, um presidente visita o continente.

Destaque para os acordos estabelecidos com a África do Sul. Um pouco à semelhança do que faz a China em África, também uma espécie de 'parcerias público-privadas' de empresas russas é a estratégia de penetração usada. Alguns exemplos ilustram o que pode ser o caminho futuro: na África do Sul estão a Norilsk Nickel, a Rusal (alumínio) ou ainda a Alrosa (diamantes), tudo na área extractiva. Esta última está com um pé na Guiné e na República Democrática do Congo, isto para não falar na importância da sua acção em Angola. Neste país, é sua intenção juntar-se à petrolífera estatal Zarnbezhneft para actuar na exploração de petróleo. Em Março de 2007 abriu um banco de direito angolano, a UBT-África (66% do capital é russo e 34% é angolano), pertença do segundo maior banco russo. No Gana, no Quénia, na Nigéria e outros países lá se vão vendendo camiões e tractores. Isto para não falar do inevitável armamento. Perdoou 14 biliões de dólares de dívidas do período de 1998-2004. Por volta do ano 2000 importava 500 milhões de dólares, agora são mais de 1,2 biliões. Exportava pouco mais de 1 bilião de dólares em 2000; agora são quase 3,5 biliões (80% concentradas no Norte de África). É certo que tudo isto é menos de 2% do comércio externo russo. Mas também era, e ainda é, no caso da China. Mas muitos países africanos agradecem. É caso para dizer, "epur si muove!".

Manuel Ennes Ferreira

Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI