Siga-nos

Perfil

Expresso

Manuel Ennes Ferreira

À boleia da África do Sul

Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt)

A África do Sul vive dias felizes e o continente africano deverá apanhar a importante boleia que a realização do Mundial-2010, pela primeira vez em África, pode significar. Não foi fácil trazer o evento. Depois de uma tentativa frustrada em 2006, na sequência do lançamento da candidatura anos antes e em pleno ascendente do Renascimento Africano com a força e a imagem de Mandela a quererem dizer que a hora de África havia chegado, só agora o país vê a pretensão concretizar-se. Mas não é um país qualquer. É, aliás, o único país africano considerado como economia emergente e integrando, por isso, o incontornável G20 dos dias que correm. Fala-se em motor para a região austral e lá está a África do Sul. Não causa espanto que 1,8 milhões de imigrantes vivam aqui. É o segundo país africano que mais trabalhadores estrangeiros recebe (só ultrapassado pela Costa do Marfim e igual ao Gana), o que representa cerca de 10% do total dos imigrantes vivendo no continente. Tinha um rendimento per capita em paridade de poder de compra de 9757 dólares em 2007, o que a colocava em 5º lugar na África subsariana e em 7º quando se consideram variáveis sociais ligadas à educação e à saúde. Existem enormes disparidades a nível da distribuição do rendimento: os 10% mais pobres retêm 1,3% da riqueza nacional enquanto os 10% mais ricos cerca de 45%. Em contrapartida, a bolsa de Joanesburgo é invejável, deixando, por exemplo, Lisboa a milhas. Na lista das maiores empresas do continente em 2008, a África do Sul colocava nove no Top 10 e 60% nas 100 maiores de acordo com a capitalização bolsista. O resultado é que um terço do PIB da ASS está em África do Sul sendo que mais de dois terços do valor da produção da indústria transformadora também se encontra no país. O peso das exportações de produtos industriais é elevado, aqui incluindo média e alta tecnologia.

E o que espera o país com a realização desta prova? Economicamente falando, seguiu a norma que envolve as obras públicas: o orçamento derrapou para o dobro (equivalente a 6,4% do PIB), mas até a Alemanha viu o seu Mundial-2006 aumentar 50%. As razões foram a crise internacional, a desvalorização do rand, o aumento espectacular dos preços de importação dos materiais usados, 28% acima do esperado. Projecta-se um impacto de 0,5% numa estimativa de 2,25% no crescimento do PIB para este ano. Mais de 170.000 empregos foram criados em diversas actividades que não as directamente envolvidas com as infra-estruturas. Mas, e isto é preocupante, de acordo com um estudo, há cinco anos um em cada três sul-africanos esperava beneficiar com as infra-estruturas criadas ou melhoradas; em 2009 já era um em cada cinco e actualmente apenas 1% acredita nisso. Não sendo de desvalorizar estas questões, o que é certo é que se trata de um momento de grande auto-estima, capitalização de imagem e afirmação da África do Sul no mundo. E como dizia atrás, espera-se que o continente apanhe a boleia.

mfereira@iseg.utl.pt

Professor do ISEG

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010