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Expresso

Manuel Ennes Ferreira

África, eventualmente...

Ficou registada para a história a realização em 2000 da I Cimeira União Europeia-África. Sete anos decorridos, Portugal prepara-se para, no segundo semestre do presente ano, presidir de novo à UE. E, de forma coincidente, coloca-se a hipótese de decorrer durante o seu mandato a II Cimeira UE-África. Se por um lado a fotografia pode de novo ficar para a posteridade, a insistência na sua realização e até mesmo a sua concretização, pode encerrar vários equívocos e perigos. Do lado dos equívocos, por exemplo, a ideia de que ela é urgente e imprescindível dado o contexto da ofensiva e aceitação chinesa em África. Do lado dos perigos, a tentação de oferecer aquilo que não é exequível, baseado em declarações grandiloquentes, de intenções e de compromissos, mas que mais tarde se verifica não ter pernas para andar. E o perigo é real dado o esgotamento da relação tradicional. O difícil é imaginar o rasgo que se impõe. Ora, ao contrário do que possa parecer, esta eventual Cimeira pode ser entendida não como pró-activa no relacionamento bilateral mas antes como defensiva, receosa de que a China, entre outros, possa apresentar-se como alternativa económica e até política ao "statu quo" que até agora tem vigorado. Que fazer então? Antes do mais, conseguir centrar nos bastidores da preparação da Cimeira dois ou três temas fundamentais e estratégicos para África, sobretudo possíveis de serem realizados com a ajuda europeia. Por exemplo, o sector da energia e das infra-estruturas. Depois, ser suficientemente flexível para que a invocação do caso Zimbabwe não se torne impeditivo do evento. E neste contexto, já que cabe ao governo português carregar o piano, que não se ponha em bicos de pés durante as negociações de preparação. Não é fundamental para Portugal a realização deste encontro. A tentação do mediatismo e da fotografia devem ser refreadas. Porque, como se sabe, subir e ser reconhecido como estrela leva o seu tempo e requer paciência. Mas para cair, a lei da gravidade é implacável.