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Expresso

Luis Marques

Palavras cruzadas

O Governo está convencido que pode contrariar o pessimismo dos agentes económicos administrando-lhes doses fortes de optimismo. Como ninguém vive de palavras, a realidade vai-se encarregando de mostrar que este antibiótico é insuficiente para matar o vírus que há muito enfraquece a economia e, por arrastamento, a vida dos portugueses.

Numa arriscada jogada de antecipação, o primeiro-ministro deu esta semana um passo em frente nesta estratégia, antecipando 2009. Garantiu que vamos viver melhor. Não especificou a que portugueses se estava a referir, nem a que partes do país, nem a que sectores da economia. O optimismo foi transferido para o futuro, face às evidências do presente.

Daqui a um ano, ou menos, saberemos se José Sócrates tem razão. Por enquanto são apenas palavras, contrariando todas as previsões existentes, que apontam para uma acentuada quebra da actividade económica. Podem alguns portugueses viver melhor com a economia a cair? Podem! É isso viver melhor? Não! Ninguém pode realmente viver melhor com a economia estagnada ou em recessão, com o desemprego a subir e a emigração a aumentar.

Desde o início que o Governo abordou a crise com um criativo jogo de palavras. Os respectivos assessores tornaram-se especialistas num complexo jogo de palavras cruzadas, procurando sinónimos rebuscados para encaixar numa estratégia de ilusão. A palavra 'crise', por exemplo, não existe em Portugal. Foi substituída por 'resistir'. "Resistimos melhor", foi o que daí resultou como mensagem política.

Na palavra 'banca' encaixa uma outra: 'sólida'. "Temos uma banca sólida", foi o que disseram. Dois bancos intervencionados depois e mais de mil milhões de euros de dinheiro dos contribuintes gastos, continua assim.

Ao que se sabe, os criativos oficiais continuam a puxar pela cabeça para encontrar um sinónimo para a palavra 'estagnação'. Com poucas letras, de preferência. Como não está fácil e a criatividade tem limites, a palavra de recurso é 'omitir'. Não há, nem vai haver. Depois logo se vê. Se entrarmos em recessão, como tudo indica que possa acontecer em 2009, é provável que a palavra a usar seja a que se vai ouvindo nos corredores: 'injustiça'.

Como se vê, o próximo ano promete ser fértil em surpresas para quem gosta de palavras cruzadas.

Luís Marques