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Expresso

Luis Marques

Junta de Salvação Nacional

Podemos compreender, com alguma boa vontade, que o Estado português tem a obrigação de proteger o sistema financeiro nacional. Afinal, recentemente também franceses e espanhóis, estes no sector energético, fizeram o mesmo, embora em situações um pouco diferentes. A intervenção do Estado na economia é o contrário do que parece ser o espírito do mercado único, mas os factos mostram que, também neste particular, nem tudo o que parece é. Uma coisa é a palavra, outra a realidade. Uma coisa é a integração, outra o Estado-nação.

Podemos admitir, neste caso sem esforço, que o Estado se deve preocupar com a grave crise que afecta o maior banco privado português. Afinal, estão em causa os interesses de centenas de milhares de accionistas e clientes, cujas poupanças ou negócios devem ser defendidos. Mas já é mais difícil de admitir que a situação se tenha arrastado ao ponto de obrigar, ou permitir, essa intervenção. Noutros países, como é o caso dos Estados Unidos, por exemplo, esse papel cabe ao Banco Central, que normalmente actua de forma rápida e implacável.

Podemos aceitar, já com algum incómodo, que três administradores, incluindo o presidente, se transfiram do maior banco português, que é público, para o segundo, que é privado, imbuídos da nobre tarefa de o salvar da desgraça. Mas fica difícil situar a fronteira ética do negócio financeiro, já que os dois bancos são concorrentes e o primeiro tem uma activa participação no segundo.

Podemos concluir, já com muito incómodo, que há interesses superiores a obrigar, por um passe de mágica, accionistas antes desavindos a unirem-se para formar uma maioria norte-coreana. Mas, dá que pensar sobre as estranhas relações de dependências que existem entre uma boa parte dos grandes accionistas e as respectivas instituições, como, no caso do BCP, tem sido público e notório.

Podemos compreender tudo isto e rendermo-nos à ideia de que, afinal, é melhor salvar o BCP do que deixá-lo perdido no seu labirinto, à mercê de um ataque hostil vindo do exterior ou, pura e simplesmente, à sua desintegração lenta e dolorosa. Podemos mesmo admitir que esse interesse imediato, de curto prazo, é suficientemente forte para juntar no mesmo grupo interesses tão díspares como os do Estado (através da CGD e da EDP), Joe Berardo, Stanley Ho, Sonangol, BPI e Teixeira Duarte (só para falar dos mais mediáticos). Mas já não é fácil aceitar que esses interesses se mantenham unidos no futuro e que, no presente, saibamos todas as motivações de cada um deles. Daí só podermos concluir que esta história, a triste história do fim do BCP, ainda não acabou.

Luís Marques