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Expresso

Luis Marques

Fui ali e voltei

No dia 3 de Agosto de 2002 despedi-me dos leitores do Expresso com um "até logo". Estive tentado, como confessei nessa crónica, a citar o saudoso amigo e cúmplice nesta aventura da escrita, Leonardo Ferraz de Carvalho, que costumava dizer: "Vou ali e já volto". Pois é, Leonardo, eu fui ali e voltei. O "até logo" demorou mais do que estava à espera, mas cá estou de novo.

A saudade da escrita, esse vírus que resiste a qualquer antibiótico, não nos deixa mesmo quando andamos afastados do universo da palavra impressa. Quando o nosso amigo comum e cúmplice por igual, Nicolau Santos, me desafiou para voltar não hesitei, embora esteja consciente da erosão provocada por tão longa ausência.

Muitas coisas mudaram nestes cinco anos e meio. O país está diferente, mas não tanto como gostaríamos. Há novos protagonistas, mas não em número que nos conforte. O mundo mudou, mas nem sempre para melhor. Fazer perguntas e suscitar dúvidas, incómodas certamente, continua a ser tão necessário hoje como sempre foi. É essa a promessa de um sentido para os escritos que se seguem, como aconselha George Steiner que se faça à relação entre o autor e o leitor.

Trata-se, pois, de regressar a 10 de Dezembro de 1988 quando iniciei aqui, neste jornal, a minha actividade de cronista amador. O desafio era o de, através da análise dos protagonistas e das situações que os envolvem, tentar dar um sentido às coisas. Ou seja, observar pessoas na sua condição de "principal unidade de funcionamento da actividade económica" na definição de Alan Greenspan. Chamei então a essa actividade a 'Cara do Caso'. Depois, por razões formais, passou a 'Caras e Casos'. Agora, como o Sérgio Figueiredo me ficou com o nome por empréstimo, muda de novo, mas o sentido continua o mesmo: captar rostos e momentos e, como um bom fotógrafo, mostrar o que está para lá do que vemos.

A antevisão deste exercício não é muito animadora. O espaço que gostaríamos de ver ocupado pela liberdade, individual ou empresarial, já conheceu melhores dias. O cruzamento dos interesses do Estado com o de uma parte importante da actividade empresarial, associado ao condicionalismo colocado pelo Estado à actividade da restante, gerou uma agenda em que é difícil distinguir o público do privado.

Desde já esclareço que não me parece um bom caminho o que resulta desta mistura. É um caminho que pode resolver alguns problemas imediatos, mas dificilmente contribuirá para fortalecer uma economia de mercado, assente na liberdade dos agentes económicos e que defenda os direitos dos mais desfavorecidos dos interesses há muito instalados na sociedade portuguesa.

Luís Marques