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Expresso

Luis Marques

Estão verdes, não prestam

Só alguém destituído de um pingo de bom senso pode desvalorizar a brutal queda do investimento directo estrangeiro (IDE) em Portugal e demonstrá-lo em público, sem temer cair no ridículo. Foi, no entanto, o que fez Manuel Pinho, um ministro que tem passado boa parte do seu tempo a anunciar novos projectos, mesmo quando não passam de intenções.

O ministro faz uma distinção entre investimento bom e o que supostamente não nos interessa. Está neste caso o investimento estrangeiro no imobiliário, principal responsável pela queda superior a 50 por cento, relativamente a 2006. Acontece que nunca ouvimos Manuel Pinho afirmar que esses capitais eram maus, quando cá estavam. Ao afirmá-lo agora Manuel Pinho parece a raposa da fábula: "Estão verdes, não prestam". Se caísse uma uva aposto que todos sabemos o que faria.

É, afinal, o que fazem todos, como se vê pelos números. O investimento que não vem para Portugal, vai para outros países. Enquanto o IDE caía para metade em Portugal, aumentava 90 por cento na Europa a 27. Não consta que algum dos países que o recebeu tenha colocado reservas ao que foi aplicado no imobiliário. E deve ter sido uma boa parte. Seria como alguém recusar ser rico, mesmo que fosse por um único dia.

A verdade é que as coisas se passam mesmo assim. A mobilidade do capital é maior do que nunca e as aplicações de curto prazo prevalecem sobre as de médio e longo prazo. Essa é uma das marcas distintivas da economia global, tal como a estamos a viver. Insinuar que Portugal não precisa de capitais de curto prazo, no imobiliário ou noutros sectores, é abdicar da parte mais importante do investimento internacional.

Outra característica do investimento estrangeiro é ser superior nos países ricos ao que tem por destino os países pobres ou em vias de desenvolvimento. O que nos remete para um círculo vicioso: precisamos de investimento para enriquecer, mas quanto mais pobres estivermos, relativamente aos nossos parceiros, menos hipóteses temos de o captar. Estamos perante um assunto sério que precisa de tudo menos de ser desvalorizado.

É que as más notícias não vêm só da frente externa, onde à queda do investimento estrangeiro temos de somar uma crise cada vez mais longe do fim. Também na frente interna a queda de investimento revelada esta semana pelo INE confirmou o que era esperado. A única surpresa está na dimensão do trambolhão.

Ninguém tem uma varinha mágica que torne Portugal atractivo para os investidores estrangeiros, nem lei alguma pode obrigar os portugueses a investirem. Resta o Estado. E é por aí, pelo investimento público, que alegremente vamos.

Luís Marques