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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Robespierre e o seu executor

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

(Da série "Diálogos Impossíveis")

Maximilien Marie Isidore de Robespierre foi um dos líderes da Revolução Francesa. Chamado de "O Incorruptível", foi o principal teórico e porta-voz dos jacobinos, a fação mais radical dos revolucionários, em oposição aos girondistas, mais moderados. Exigiu o guilhotinamento do rei e da rainha e instalou o Terror, que liquidou opositores da Revolução, ou apenas suspeitos de se oporem à Revolução, numa orgia de sangue que não poupou nem o seu ex-companheiro Danton (o Trotsky para o seu Estaline, numa analogia um pouco forçada). Pouco depois da execução de Danton, o próprio Robespierre foi preso pelos seus inimigos girondistas e condenado à morte. Na mesma guilhotina.

Imaginemos que, na véspera da sua execução, Robespierre recebe na cela a visita de um verdugo oficial. Que se apresenta:

- Louis-Phillipe Affilè...

- Enchantê.

- Seu admirador...

- Muito obrigado.

- Foi por sua causa que entrei para o serviço público. Foi ouvindo os seus discursos que me decidi a servir a Revolução.

- A Revolução agradece.

- Sou obrigado a fazer esta visita, antes de cada execução. Para, por assim dizer, preparar o terreno...

- Você quer dizer, a minha nuca.

- Também devo medir a sua cabeça, para saber o tamanho do cesto. O farei com a devida reverência. É a cabeça mais brilhante da República.

- Esteja à vontade. A minha cabeça não pertence mais à República. A República não a quis mais. Na verdade, a minha cabeça já pertence a você.

- O senhor prefere raspar a nuca?

- Como foi com o Danton?

- Ele disse que uma navalha antes da lâmina da guilhotina seria uma apoteose do supérfluo.

- Ah, as frases do Danton. Ele foi o mais frívolo de nós os dois. Contentava-se em fazer frases. Eu queria fazer história.

- Maria Antonieta pediu para manter todo o seu cabelo. Disse que era por razões sentimentais. Sentia-se muito apegada a ele.

- Você também foi o executor da Maria Antonieta?

- Sim. Foi no meu turno. Nós, os verdugos, não temos tido descanso. O senhor dá-nos muito trabalho. Ou dava-nos...

- Tudo pela Revolução.

- Eu sei. É por isso que mantenho este emprego, apesar das lamúrias dos condenados, das ofertas de suborno... Tudo pela Revolução.

- O Danton e a Maria Antonieta ofereceram suborno para não serem guilhotinados?

- O Danton não. A Maria Antonieta sim. Uma fortuna. Resisti. Também sou incorruptível. Inspirado no senhor.

- E se eu lhe oferecesse uma fortuna para me ajudar a fugir?

O verdugo fica em silêncio. Depois sorri.

- Eu diria que o senhor está me testando. Para saber se a minha admiração pelo senhor é sincera. E se eu sou mesmo incorruptível, como o senhor.

- E se eu insistisse na oferta?

- Então, todas as minhas ilusões ruiriam. A minha admiração pelo senhor desapareceria e eu não acreditaria em mais nada. Nem na Revolução.

Silêncio. O verdugo pergunta:

- Foi um teste, não foi?

- Claro - diz Robespierre.

- E, então, vamos raspar a nuca?

- Só uma aparadinha, para o corte da lâmina ser limpo.

Texto publicado na edição do Actual de 26 de Junho de 2010