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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Os Ungerer

Estrasburgo é a capital da Alsácia, terra de chucrute e vinho branco. É uma bela cidade, com seus canais, seu centro histórico classificado pela UNESCO como Património da Humanidade e sua impressionante catedral, a Notre Dame de Estrasburgo, cuja torre já foi a construção mais alta do mundo, o primeiro arranha-céus. Em comparação com a austera e elegantemente simétrica Notre Dame de Paris, a de Estrasburgo só pode ser descrita com um neologismo arquitectónico: rocogótica. Como está assentada numa praça desproporcional ao seu tamanho, como um pão de açúcar num pires, é difícil recuar para acompanhar a vertiginosa fuga para o alto da sua única torre. Há pouco espaço para se maravilhar. Ainda mais se você for eu e não tiver mais a necessária flexibilidade dorsal.

Mas há uma nova atracção em Estrasburgo. O artista gráfico Tomi Ungerer, natural da cidade, doou o seu acervo, incluindo desenhos, pinturas e uma grande colecção de brinquedos, à comunidade, que cedeu um antigo prédio municipal para recebê-lo. O encanto do novo museu começa no contraste do velho casarão em estilo clássico com o seu conteúdo, a obra de um dos artistas mais modernos e anticonvencionais em actividade. Tomi Ungerer pertence a uma linhagem que tem origens remotas no francês Daumier e no inglês Hogarth, mas é um fenómeno do século XX: gente como Saul Steinberg, George Grosz, André François, Ronald Searle e poucos outros - entre os quais, sem dúvida, o nosso Millôr Fernandes - que fizeram do cartoon uma arte superior. Tomi Ungerer talvez seja, de todos eles (com a possível excepção de Grosz, que flagrou a inevitabilidade do nazismo em suas ácidas caricaturas da alta burguesia alemã), o mais impiedoso na crítica social. E na sua misantropia, embora o museu seja dedicado em grande parte às suas ilustrações para livros infantis, além dos brinquedos, e estivesse cheio de crianças no dia em que o visitámos. Não há salas proibidas para menores no museu, mas notámos uma subtil interferência do pessoal da casa no trânsito das visitas, para evitar que as crianças vissem outra parte importante da obra de Ungerer, os seus desenhos eróticos, com ênfase em aparelhos sadomasoquistas.

Na catedral de Estrasburgo há um famoso relógio astronómico, um mecanismo enorme que além das horas mostra os dias da semana, cada um com seu deus mitológico correspondente, o mês, os anos (inclusive os bissextos), o tempo solar, as fases da lua e seus ciclos de eclipses e os signos do Zodíaco. Todos os dias, às 12h30, o relógio dá um espectáculo: bonecos dos 12 apóstolos desfilam diante de uma imagem de Jesus Cristo, acompanhados de uma música de realejo. Li um pouco sobre o relógio e descobri que o actual é a terceira versão desde o século XIV. E que os outros dois, feitos para durar tanto quanto o Universo, ou pelo menos quanto a catedral, pararam de funcionar, misteriosamente, em épocas de crise do cristianismo europeu. E que na construção do actual relógio, no século XIX, foi muito importante a contribuição de dois irmãos, cujos descendentes cuidaram do seu funcionamento até há pouco tempo. E cujo nome era Ungerer! Não pude deixar de pensar nos desenhos de sexo mecanizado do Tomi vistos na exposição. A família, aparentemente, tem um dom para engrenagens imaginosas. E não pude deixar de pensar que, com a crise de agora ameaçando o bom funcionamento do capitalismo financeiro mundial, esse outro mecanismo eterno de duração incerta, deve haver gente temendo que a qualquer momento o actual relógio também pare, ou os apóstolos comecem a se atropelar diante de um Cristo atónito.