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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

O poder dos garçons

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

- Excelente, excelente - disse o homem, limpando o que restava de molho no prato com um pedaço de pão. - Diga ao chefe que eu quero cumprimentá-lo.

- Ele já vem falar com o senhor - disse o garçon. - Para lhe agradecer.

- Me agradecer? Porquê?

- O senhor não viu como o restaurante está cheio? Tudo devido aos seus elogios. Desde que saiu a sua crítica, no jornal, o restaurante tem estado sempre assim. Lotado.

- Mas... Como é que ele sabe que o crítico sou eu? Sempre venho incógnito. Faço questão.

- Eu disse quem o senhor era.

- Você? Mas como me reconheceu?

- Sei tudo sobre o senhor. Informei-me. Pesquisei. Fiz questão.

- Mas por que você... Ah, aí está nosso chefe! Olhe, parabéns, viu? Desta vez você se superou. Obrigado por um grande jantar.

- Eu é que quero agradecer-lhe - disse o chefe. - Pelo que você escreveu a meu respeito. O restaurante tem estado sempre assim, lotado, por sua causa. Devo meu sucesso a você.

- O que é isso? O sucesso deve-se à sua comida. Ao seu talento. Eu não fiz mais do que escrever a verdade. Modestamente.

- Não. Você não sabe o poder que tem. Uma palavra sua pode fazer ou desfazer um restaurante, uma reputação ou uma vida. E salvou a minha.

- Por favor...

- Mas porque é que você nunca se identificou antes? Eu teria preparado alguma coisa especial. Como, aliás, preparei hoje, depois que o Almiro aqui me disse quem você era.

- Faço questão de ficar incógnito, justamente para não ter tratamento especial. Mas agradeço a sua gentileza. Ela só confirmou minha opinião a seu respeito. Muito obrigado.

- Muito obrigado a você - disse o chefe, afastando-se. - E volte sempre.

- Voltarei com muito prazer - disse o homem.

- Mil folhas? - perguntou o garçon, que permanecera ao lado da mesa, acompanhando a conversa. - É uma especialidade da casa.

- Não, obrigado - respondeu o homem. - Só um cafezinho. Mas me diga uma coisa: como é que você sabia quem eu era?

- O senhor também mudou a minha vida. Eu tinha um restaurante, maior do que este. Com uma boa clientela e um futuro promissor. Então saiu uma crítica sua no jornal arrasando o meu restaurante e ridicularizando a minha comida. O senhor não sabe o poder que tem. Foi o começo da minha ruína. A clientela desapareceu. Endividei-me e perdi o restaurante. A minha mulher abandonou-me e levou as crianças. Tive que começar a trabalhar de garçon, pulando de lugar em lugar, vivendo de gorjetas. E durante todo esse tempo, tratei de me informar a seu respeito. Cheguei a segui-lo na saída do jornal, só pensando numa coisa: vingança, vingança. Há uma semana, comecei a trabalhar aqui. Hoje, vi o senhor entrar e pensei: finalmente encontramos-nos. Chegou o dia. Vou vingar-me.

- Mas, mas... vingar-se como?

- O senhor saberá quando começarem as cólicas.

- Mas não foi você que preparou a comida!

- No caminho entre a cozinha e a mesa, a comida esteve dois minutos sob minha jurisdição. Não foi preciso mais do que isto. Esse é o poder dos garçons.

- Mas, mas...

- O café é expresso?

Texto publicado na edição do Actual de 1 de Maio de 2010