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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

O escalado

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

"Boa tarde, auditório! Boa tarde, telespectadores! Vocês me conhecem do teatro, do cinema e da televisão, e agora aqui estou eu, escalado pela emissora, não me perguntem porquê, para apresentar 'Não Ria e Fique Rico', o novo programa milionário da TV brasileira que todas as semanas trará a felicidade para um participante, que poderá sair daqui com até quinhentos mil reais no bolso. Quinhentos mil reais! Não ganhei isso nem fazendo novela, quando eles sabiam me aproveitar. E sem mais demora vamos chamar nossos três participantes de hoje, escolhidos entre milhares que nos escreveram pedindo para participar, começando por... Eloir Dalvento! Boa tarde, dona Eloir! Tome seu lugar atrás desse... dessa... desse negócio aí. Isso. Em seguida vamos chamar... Marcos Pontiagudo! Boa tarde, seu Marcos! Fique aí ao lado da dona Evoni. Eloni? Eloir, claro. Desculpem, eu não dormi bem esta noite. Quem dormiria, depois de receber um ultimato como eles me deram? Ou faz o programa ou... Bom, esquece. Vamos começar 'Não Ria e Fique Rico'! Nossos três candidatos estão a postos e... Espera. Falta um candidato. E ele é, deixa ver... Não é ele, é ela. Dalva Florimar! Aplausos para a dona Dalva, auditório! Fique ao lado do seu Marcos nesse troço. Púlpito. Acho que isso se chama púlpito. Quem se importa? Vamos lá. Atenção para as regras do jogo. Na frente de cada um de vocês há um botão. Um verde, um amarelo e um vermelho. Quando eu fizer uma pergunta... Desculpem. Não é nada disso. Antes das perguntas, cada um de vocês tem de girar a Roda da Felicidade. É isso, produção? Não consegui decorar o roteiro do programa. Estou acostumado a decorar roteiros de novela e peças de teatro... Eu já fiz Shakespeare. Alguém me viu? Uma adaptação livre de 'Otelo' passada na Inglaterra em que Otelo era gay e a Desdémona se chamava Desmond. A Barbara Heliodora odiou, mas disse que eu me salvava do caos. Mas deixa isso pra lá.. Cada um faz girar a Roda da Felicidade. Se a roda parar no mês de aniversário do concorrente, ele ganha dez mil reais, se cair no mês de aniversário de outro concorrente, este ganha os dez mil, e se não cair no mês de aniversário de ninguém, acontece alguma coisa engraçada com a pessoa que girou a Roda da Felicidade. Derramam uma lata de tinta amarela na sua cabeça ou aparece um palhaço para tentar lhe dar um beijo e deixá-la lambuzada de vermelho, ou vem um lagarto verde e... e... Faz o quê, mesmo, produção? Enfim, depende do botão que os outros dois apertarem, ou de quem apertar um botão primeiro, ou alguma idiotice parecida. Ah, importante: os outros dois não podem rir, aconteça o que acontecer, senão não apenas não ganham nada como têm de pagar à emissora. Depois vêm as minhas perguntas sobre os afluentes do Amazonas e as capitais da Europa. Isso se eu ainda não tiver saído correndo e gritando deste estúdio. Mas vamos lá! A senhora primeiro, dona Heloísa! Gire a Roda da Felicidade! E pensar que eu fiz dois anos de laboratório e três de expressão corporal, pra isto..."

Texto publicado na edição do Actual de 5 de Junho de 2010