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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Ludwig, Miles e Elizeth

A Sinfonia Nº 3 de Ludwig van Beethoven era para se chamar "Sinfonia Buonaparte", em homenagem a Napoleão, que então levava os ideais da Revolução Francesa a toda a Europa na ponta das suas baionetas republicanas. Como Goya, outro entusiasta inicial de Napoleão, Beethoven não tardou em se desiludir com o herói auto-ungido imperador e rasgou a página com a sua dedicatória da sinfonia, que reintitulou Eroica e que passou a ser uma exaltação do espírito libertário e da grandeza humana. E ficou como exemplo máximo da sinfonia clássica e parâmetro para julgar tudo o que foi composto antes ou depois no género, por ele e por outros - uma revolução não na política mas na sensibilidade europeia e na forma de fazer música. Anos depois, Beethoven comporia a sua Missa Solemnis, e assim como a sua sinfonia heróica dispensara um herói ideal, substituído pelo ideal do compositor, a Missa era uma obra de devoção em que Deus quase não aparecia - pelo menos não com as deferências que Lhe dedicara Bach nas suas paixões e missa - e a deidade mais evidente era o próprio Beethoven, fazendo outra revolução dos sentidos. E não descansou aí. Os seus últimos quartetos para cordas - angulosos, desconcertantes, dificílimos de tocar e, na época, de ouvir - são hoje considerados os precursores, os primeiros acordes, da música moderna. A sua complexidade só foi igualada, anos mais tarde, nos quartetos para cordas de Béla Bartók. O crítico Edward Said escolheu os últimos trabalhos de Beethoven como protótipos do "estilo tardio", aquelas zonas de criatividade excêntrica e de isolamento pessoal (no caso de Beethoven, agravado pela surdez) a que certos artistas ascendem, quase sempre deixando público perplexo e críticos incompreensivos para trás. E que só são redimidas quando o artista não está mais aí para ouvir as desculpas, já que todo o estilo tardio é prelúdio de morte. Beethoven também foi o protótipo do artista que não se contenta em ser pioneiro uma vez só.

Como Miles Davis. Que não chegou a ser um dos que revolucionaram o jazz no fim dos anos 40 e começo dos 50, com o "be-bop", embora tenha participado de algumas gravações com Charlie Parker e outros pioneiros do novo estilo, mas liderou a revolução seguinte. Reuniu um grupo de músicos jovens como Lee Konitz, Gerry Mulligan e John Lewis num noneto com tuba e trompas para tocar os arranjos de Mulligan e, principalmente, de Gil Evans, baseados no trabalho inovador deste para a banda de Claude Thornhill. Nascia o jazz "cool", em que as experiências com tonalidades e variações cromáticas colectivas valiam tanto quanto os solos e era uma projecção da maneira de tocar do próprio Miles, com o seu trompete sem "vibrato" e a sua distribuição reflexiva de espaços numa frase. O "cool" foi a base do que se convencionou chamar de jazz da Costa Oeste, predominantemente branco, mas Miles ficou em Nova Iorque e liderou a antítese do que ele mesmo tinha criado, o "hard bop", ou um "bop" ainda mais quente do que o original. Depois de gravar alguns discos históricos (Miles Ahead, Sketches of Spain, Porgy n' Bess) com uma grande orquestra e arranjos luxuriantes de Evans, que lhe valeram tanta popularidade e dinheiro que ele poderia muito bem ter se acomodado por aí, Miles fez outra revolução. Entrou num estúdio com um grupo bem seleccionado e apenas alguns esboços tonais sobre os quais improvisar e fez um dos discos definitivos da história do jazz, Kind of Blue - diferente de tudo o que tinha feito antes. O estilo tardio de Miles foi a sua fusão do jazz com o rock. Confesso que fui um dos que ficaram para trás quando ele começou a usar tranças e sandálias e a tocar com a garotada. Mas acho que Beethoven o entenderia.

Onde entra Elizeth Cardoso nesse trio? Ela também foi multipioneira, ou pelo menos pioneira duas vezes. Era uma cantora popular clássica, com grande prestígio, mas não se poderia descrevê-la como inovadora. A chamavam de "Divina". Tinha um estilo mais antigo do que o de cantoras "cool" que começavam a surgir na época, como Maysa. Mas foi dela a voz que, junto com o piano, a regência e os arranjos de António Carlos Jobim, as composições de Tom e Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto no LP Canção do Amor Demais, de 1958, inaugurou a bossa nova. E, como Miles Davis, depois de participar de uma revolução, ela liderou a contra-revolução. Em 1965, o disco Elizeth Sobe o Morro trouxe um reconhecimento inédito a compositores do samba tradicional, como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth só difere de Ludwig e de Miles porque não teve um estilo tardio. Foi a mesma, divina, até à última nota.

Luís Fernando Veríssimo