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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Fuga

Eu costumava tirar os sapatos no cinema, até que um dia fui recalçá-los - e não os encontrei. Não pensei em roubo nem em ratos. Por alguma razão, imaginei que eles tinham fugido.

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

Era isso. Os meus sapatos tinham-se aproveitado da minha desatenção e dado no pé. Naquele instante, estavam correndo pela rua, pulando de alegria e batendo os calcanhares no ar para celebrar a liberdade conquistada. Talvez tivessem planeado a fuga havia tempo e só esperassem a oportunidade. O cinema era o lugar ideal. Eles podiam sair furtivamente, no escuro, e a sua falta só seria sentida no fim da sessão. E, finalmente, andariam sozinhos na rua, sem o meu peso para oprimi-los.

Eventualmente, eles entrariam para um gangue de sapatos fujões ou marginalizados. Um bando de renegados - botinas descartadas, mocassins decadentes, ténis de boas famílias caídos em desgraça, sandálias havaianas e alpargatas nordestinas vivendo em louca promiscuidade, sapatilhas rebeldes e, claro, inúmeros pés-de-chinelo - que andavam pelos becos cheirando cola de sapateiro, chutando latas e sapateando até altas horas. Acabariam na minha porta, pedindo graxa, o seu lugar de volta na segurança do meu armário e perdão. E então eles me pagariam.

Acabei encontrando os meus sapatos. Que não tinham fugido. Talvez só ido dar uma volta.

Padrões

Durante muitos anos, o padrão de mulher 'boa' no Brasil foi o tipo 'violão'. Mais anca do que peito. Aos poucos, fomos nos enquadrando nos padrões internacionais de beleza, embora persistisse a certeza de que o padrão 'violão' era melhor e que os estrangeiros não sabiam o que estavam perdendo. O tipo longilíneo se impôs, e hoje nem entre os travestis - estes guardiães das virtudes femininas em desuso - se encontra o formato antigo. Mais uma vitória do colonialismo cultural.

Tese: a evolução do Maio teve muito a ver com isso. O advento do biquíni e da tanga condenou a coxa larga a adaptar-se ou a sair da praia. A transformação do traje de banho trouxe outros benefícios para a humanidade e seus fundilhos. Ainda peguei o tempo dos calções infantis de pano, que ficavam pesados e ásperos quando molhados e cheios de areia e nos assavam as pernas e a bunda. E até uma determinada época os maillots das moças eram feitos para disfarçar o facto de elas terem sexo. Mas a gente sabia que elas tinham, embora não se tivesse bem a certeza de como funcionava. Conclusão: bons tempos, nada!

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010