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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Encontros e desencontros (3)

Do baú. O inglês Tom Stoppard aproveitou o facto de Lenine, James Joyce e o inventor do dadaísmo, Tristan Tzara, terem vivido em Zurique na mesma época para imaginar uma farsa em que os três se cruzam e se confundem e em que não faltam encontrões e pastas trocadas, com Lenine levando para casa, em vez dos seus escritos revolucionários, os escritos revolucionários de Tzara, etc. A peça chama-se Travesties e é uma especulação sobre revolução política e revolução na arte e sobre o papel do fortuito em tudo isso. Quem pode dizer que o jovem Hitler e o dr. Freud não se cruzaram um dia em alguma rua de Viena e esbarraram um no outro, um protótipo intelectual da raça que, segundo Hitler, inventou a consciência, e o homem que tentaria exterminá-las, a raça e a consciência, da História? Épocas inteiras poderiam ser resumidas em diálogos imaginários entre contemporâneos que só não se encontraram por acaso. Goethe e Napoleão, por exemplo, colocados num dramático promontório contra um pano de fundo pintado por Goya, com trilha sonora de Beethoven, teriam todo o século XIX aos seus pés e o definiriam num texto de meia hora.

Um desses encontros definitivos deu-se na realidade, mas infelizmente não havia um gravador por perto. Jean-Paul Sartre foi contratado para escrever um "script" sobre Freud para John Huston dirigir. O "script" chegou a ser publicado, mas o filme que Huston fez sobre Freud não aproveitou o material de Sartre, que, parece, daria um filme de sete horas. E quando Sartre o reescreveu, atendendo a um pedido de Huston para encurtá-lo, ficou ainda mais longo.

Em Outubro de 1959, Sartre passou várias semanas na casa de Huston na Irlanda, para os dois se acertarem. Melhor do que um filme de Huston sobre Freud escrito por Sartre seria um filme sobre essas semanas outonais, presumivelmente num velho e húmido castelo cercado de brumas, entre ancestrais perplexos e produtores ansiosos. Sartre chegando ao castelo a meio de uma tempestade. A porta sendo aberta por um gnomo irlandês, que leva Sartre até ao seu quarto num andar superior, iluminando o caminho com as velas de um castiçal antigo. Sartre ouvindo o ruído de correntes sendo arrastadas pelo chão e mais tarde descobrindo que era apenas o velho Huston exercitando os músculos que lhe restam...

No livro Lettres au Castor, uma colecção de cartas de Sartre a Simone de Beauvoir (que ele chamava de "Castor"), há uma descrição destes dias. Sartre escreve que a Irlanda dá a impressão de ser um país agonizante. Todos emigraram para a América, deixando para trás uma paisagem "pré-lunar". E é exactamente assim a paisagem interior de "mon boss, le grand Huston", como o descreve Sartre. Ruínas, casas abandonadas, um panorama desolado com vestígios da presença humana, mas da qual o homem emigrou. Não sei para onde, diz Sartre. Ele não é propriamente triste, é vazio, salvo nos momentos de vaidade infantil quando veste o seu smoking vermelho. É impossível reter a sua atenção por cinco minutos, segundo Sartre. Um dia, falando sobre Freud, Huston diz a Sartre que no seu inconsciente não existe nada. E o tom indicava o sentido: mais nada, nem mesmo velhos desejos inalcançados. "Une grosse lacune." E Huston vive desaparecendo.

Já Huston diria, nas suas reminiscências, que nunca tinha conhecido alguém mais teimoso e categórico do que Sartre. "É impossível conversar com ele. É impossível interrompê-lo. Aconteceu uma vez, exausto com o esforço, eu sair da sala por instantes. O som da sua voz me acompanhou e quando voltei ele não tinha nem dado conta da minha ausência."

No meio do filme, o fantasma de Freud poderia se materializar das brumas e entrar no encontro entre a energia um pouco gasta, com algo de empulhação, do novo mundo e a prolixidade intelectual do velho, entre duas testemunhas irreconciliáveis do século, para esclarecer algumas coisas, ou ajudar a obscurecê-las.

Luis Fernando Veríssimo