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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Encontros e desencontros (2)

Um nobre chamado Fernando Lopez comandava uma guarnição portuguesa em Goa, na Índia, no começo do século XVI. Todos se converteram ao maometismo, e Lopez foi punido pela coroa portuguesa com a amputação da mão direita, as duas orelhas e o nariz, para aprender a não aderir aos bárbaros. Sem cara (literalmente) para retornar a Portugal, Lopez auto-exilou-se na ilha de Santa Helena e lá ficou até o fim da sua vida, 30 anos, durante os quais plantou videiras e pomares e transformou a ilha num paraíso. Quando os ingleses mandaram Napoleão Bonaparte para Santa Helena, mais de trezentos anos depois, não havia vestígio do que Lopez plantara. A ilha voltara a ser um lugar desolado entres as costas do Brasil e da África, uma pedra no meio do nada onde o imperador deveria refletir sobre as suas glórias e os seus pecados até morrer. /p>

Mas há um terceiro exilado na História de Santa Helena. Um inglês. Digamos que seu nome fosse William. Por uma daquelas formalidades irracionais de que os ingleses gostam tanto, William era obrigado a, diariamente, certificar-se de que Napoleão estava em sua casa, para reportar ao governador da ilha e este reportar à coroa inglesa. Sua única missão na vida era enxergar Napoleão. /p>

Não se sabe como Napoleão provava a William a sua presença dentro da casa. Mostrava a cara numa janela, numa hora combinada? Talvez um dia, com especial enfaro, mostrasse a bunda. Ou apenas um dedinho, forçando William a deduzir que o dedinho era dele. E pode-se imaginar que os dois tenham, lentamente, enlouquecido juntos. /p>

Napoleão talvez convidasse William a jantar com ele. Talvez conversassem todas as noites até que viesse o sono, ou o delírio. /p>

- Vamos, homem. Coma. Beba. Jamais sairemos desta maldita ilha, mesmo. /p>

- Não me dê ordens. Você é o preso, aqui. Você é o derrotado, eu o vencedor. Você não é mais nada. Somos iguais. /p>

- Iguais? Você e eu? /p>

- Iguais. Apenas dois homens longe de casa, com suas memórias. /p>

- Sim, mas as minhas memórias de casa são de um império, enquanto as suas são, no máximo, de um pudim. /p>

- Somos iguais. Dois bichos abandonados numa ilha calcinada. Duas vasilhas vazias atiradas fora. Não interessa se uma era de conhaque caro e a outra de rum barato. Agora somos iguais. /p>

- Diga-me, William: como você pode ter certeza que eu estou aqui? De tanto me ver todos estes anos, você pode estar me vendo em toda parte. Para você, ver-me não é mais um acontecimento, é um tic. Eu não estou mais aqui, William. Eu já fugi. Você está sonhando comigo. /p>

- Sabe com quem que eu sonho, Nappy? Sabe quem aparece nos meus delírios? /p>

- Quem? Se for mulher, empresta-me. /p>

- Lopez, o português. Ele passeia pelo meu cérebro como um fantasma shakesperiano, dizendo coisas. E o que ele diz é que somos iguais. /p>

- Você é um maníaco pela igualdade, Will. /p>

- Ele diz que eu sou igual a ele. Ele cobriu a ilha de flores, mas não podia cheirá-las porque não tinha nariz. Era como estar no paraíso e não estar. Era como estar no paraíso de outra pessoa. /p>

- Ele tem razão. Você está na minha história e não está, pois ninguém lembrará do seu nome quando eu estiver na minha cripta dos Invalides. Você tem a liberdade que eu não tenho, mas não pode aproveitá-la enquanto eu estiver vivo, como Lopez não podia cheirar as suas flores. Bom observador, esse Lopez. Eu o convidaria para jantar, mas dizem que três fantasmas na mesa dá azar, além de assustar a criadagem. /p>

- Só vejo um fantasma na minha frente. /p>

- Outro delírio seu, Will. Você é o fantasma nesta ilha. Eu sou mais que real, sou imperial. Posso ser o primeiro louco da História que pensou que era Napoleão, mas nenhum louco, jamais, em toda a História, pensará que é você. /p>

- Olha ele ali! Lopez, atrás da vidraça. Terrível visão! Todos os homens sem cara da História. Todos os insignificantes, todos os mutilados pelo anonimato e o esquecimento do mundo. E ele está me abanando! /p>

- Controle-se, Will. Pare de ter visões. Ordeno que você não veja mais ninguém, além de mim. Você só existe para me ver, eu só existo se você me vê. Minha posteridade é você. Os ingleses acharam que uma ilha era demais e exilaram-me no seu nervo óptico. Troquei um continente por uma retina. Pronto, está contente? Essa é a sua significância, Will. Se esfregar os olhos, você me apaga da História. Vamos, sinta o bouquet deste vinho. Aproveitemos que ainda temos nossos narizes. /p>

Luís Fernando Veríssimo